Um Dragão empreendedor

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Lyoto Machida - Karate Machida

Muitos conhecem o lutador Lyoto Machida das lutas de UFC, mas poucos sabem do seu lado empreendedor

Essa grande personalidade de MMA conta em entrevista exclusiva à Gestão & Negócios PME como também viu nos ensinamentos do caratê motivos de sobra para gerir e investir em vários negócios

Lyoto Machida coleciona diversas vitórias no UFC. Ele foi um dos responsáveis por levar o caratê ao evento e há pouco tempo mostrou para o mundo que é possível competir com mais idade ao lutar com Derek Brunson e Eryk Anders. Sua performance como lutador de MMA é impecável, assim como sua atuação como empreendedor.

O lutador e empresário levou os ensinamentos aprendidos nas artes marciais, como persistência, paciência e sabedoria, para o mundo dos negócios e tem se dado bem. Abriu em 2012, com a família, uma rede de academias em Belém do Pará, a Academia Machida, que já conta com mais de mil alunos. “Além de ser lutador, sempre gostei do empreendedorismo. Já tinha vontade de empreender, e sempre quis ir além”, conta.

Esse “além” nasceria em 2016, quando Lyoto quis dar um salto maior nos negócios e fundou a Machida Academy, em Los Angeles, onde é também professor nos períodos off season (período sem luta marcada). No local ele ensina o Machida Karate, com uma metodologia única, que tem como objetivo transformar a vida das pessoas por meio das artes marciais.

A Machida Academy já possui associados tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e na América Latina. A academia foi construída sem dinheiro de investidores externos e já atingiu seu ponto de equilíbrio. Em entrevista, o lutador conta sobre a sua trajetória no mundo do empreendedorismo e os seus projetos no presente e para o futuro.

Quando decidiu abrir a primeira academia de artes marciais?

Tenho dois empreendimentos diferentes. O mais antigo é uma academia em Belém/PA. Esse espaço foi aberto em 2012 em sociedade com os meus irmãos e mescla a área fitness tradicional de uma academia, além de aulas de caratê. Nesse caso, a modalidade ensinada é mais tradicional e focada no estilo usado para as competições. Essa academia tem, atualmente, 1,5 mil alunos. Há um ano, no entanto, decidi empreender internacionalmente, já estava morando em Los Angeles e investi na Machida Academy, que é um projeto com uma proposta de diferente metodologia. Nossa missão é mudar de forma positiva a vida das pessoas através das artes marciais. Percebemos o potencial que as artes marciais têm de proporcionar uma vida mais digna para as pessoas no sentido emocional. Ajudamos nossos alunos a construírem mais autoconfiança, segurança, autoestima e capacidade de realização no dia a dia.

Mas como nasceu a ideia de abrir a academia?

A ideia de abrir a academia nasceu de querer expandir o nosso caratê, de olhar com uma visão mundial. Nos desenvolvemos ao longo dos anos, com essa mudança para o MMA, e tudo o que aprendi, queria colocar dentro do caratê. Então eu e o meu irmão Chinzo começamos a elaborar situações de treinamento e criar um caratê mais completo. Depois nós fomos pesquisar, e esse caratê, não modernizado como hoje, já existia no passado. É um caratê mais voltado para a defesa pessoal. Só que nós o modernizamos. Então no passado as pessoas se defendiam de situações diferentes, como pessoas com espada, por exemplo. Essa era a defesa pessoal na época. Hoje ninguém vai te atacar com uma espada na rua, muito difícil acontecer uma situação dessa. Mas, sim, uma agressão como um empurrão, um soco. Então trouxemos esse lado do caratê mais voltado para a defesa pessoal.

Lyoto Machida - Karate Machida

“Ao ir para Los Angeles, a vontade de abrir uma academia começou a crescer. Quando fiquei afastado das lutas, decidi que era a hora de tirar essa vontade do papel. Porém, eu queria trazer um produto diferente e novo”

Por que decidiu abrir exatamente nos Estados Unidos?

Sabemos que os Estados Unidos eram o melhor lugar para isso e que Los Angeles era a cidade certa. Já estou morando lá há seis anos e aproveitei esse tempo para estudar o mercado, ver o que funcionava e como era o público local. Lá é mais fácil abrir as portas para uma expansão mundial.

Explique um pouco mais sobre como o projeto funciona?

Nosso público-alvo é dividido por propósito: o de se aperfeiçoar como pessoa através dos conceitos e prática de uma arte marcial milenar. Nós temos aulas destinadas tanto para crianças quanto para pessoas da terceira idade. O que faz com que as pessoas busquem a Machida Academy, na verdade, é o conjunto de valores, conceitos e técnicas que ensinamos. O que fazemos de diferente é que a nossa arte marcial não é voltada para a competição em si, mas sim para a vida, para que as pessoas possam utilizar a arte marcial no seu dia a dia; na hora de um fechamento de negócios, em um momento de decisão na vida pessoal ou profissional; para que a pessoa possa ter autoconfiança, autoestima. Nosso objetivo é que a pessoa possa desenvolver as habilidades que estão dentro dela. O que fazemos diferente é buscar o lado filosófico junto com o lado marcial. Temos as classes “Little Dragon”, que são voltadas para crianças de até seis anos, nessa fase da vida está sendo formado o caráter da criança, e o caratê pode contribuir de forma positiva, por exemplo, para ensinar disciplina, resiliência e determinação. Usamos o caratê como um antibullying na escola e na rua. Depois temos alunos na adolescência, que também é um período de formação da personalidade, na fase adulta, quando as pessoas buscam se sentir mais autoconfiantes. E também temos alunos da terceira idade, que são pessoas em busca de mais autoconfiança, de recuperação da autoestima, querem saber se defender e ganham isso com os treinamentos.

Como aconteceu toda a criação da empresa?

Ao ir para Los Angeles, a vontade de abrir uma academia começou a crescer. Quando fiquei afastado das lutas, decidi que era a hora de tirar essa vontade do papel. Porém, eu queria trazer um produto diferente e novo, que é o Machida Karate, uma metodologia do caratê que faz um resgate histórico da modalidade, trazendo de volta golpes que deixaram de ser usados quando a arte marcial se transformou em esporte e que eu e meu irmão usamos no octógono. Também projetamos a academia com uma infraestrutura para que os alunos possam desenvolver todo seu potencial, com espaço físico, ferramentas e equipe que estão alinhados com o nosso propósito. Resumiria o passo a passo em pequenas metas: criação do projeto, concepção da metodologia, do diferencial do negócio, investimento estrutural, investimento em recrutamento e treinamento das equipes, marketing e vendas para atrair os alunos, planos de fidelização, ações com a comunidade que está ao nosso redor e avaliação constante de onde podemos melhorar.

Como funciona a relação de vocês com os alunos visando ao desenvolvimento da empresa?

Nós ouvimos muito os alunos. Temos uma parte de telemarketing muito ativa que busca o feedback dos alunos para saber as suas necessidades. Se ele está na academia, buscamos entender o que ele precisa desenvolver e se estamos atendendo a essa expectativa. Se ele se afastou, tentamos entender o porquê. Aí tomamos decisões sobre o que precisa ser modificado e no que investir. Temos várias estratégias de fidelização dos clientes, a que acabei de citar é uma delas. Também temos uma estratégia de ramificação. Fazemos concursos com o aluno ao longo da trajetória dele na academia, no sentido de cumprimento de tarefas e recebimento de premiações. Fazemos um trabalho de boas conexões relacionado à comunidade que nos cerca, temos convênios com as escolas locais, estamos próximos da comunidade de saúde, como os médicos pediatras, que entenderam nosso trabalho na formação do cidadão, na formação do caráter por meio das artes marciais.

Qual é o seu papel e participação na empresa?

Na fase de criação do projeto e desenvolvimento da metodologia me dediquei integralmente ao empreendimento, pois era um momento em que não estava lutando. Apostamos muito forte em um posicionamento que tivesse um diferencial. Seguimos o conceito de marketing que fala sobre a estratégia do “oceano azul” e do “oceano vermelho”. Se você está no oceano vermelho fica brigando por preços o tempo todo, e quando está no oceano azul nada sozinho. Então basicamente nossa estratégia é esta: ter um diferencial para não estar na guerra de preço. Hoje, divido muito bem o lado empreendedor e o lado lutador. Quando eu estou em off season participo ativamente do dia a dia da academia. Dou aulas e cuido da parte estratégica. Investimos principalmente na área de vendas e marketing para que a empresa cresça. Quando estou em treinamento, não tenho possibilidade de estar na academia. Por isso, tenho pessoas e uma equipe que trabalham junto conosco.

Como foi e tem sido atuar no empreendedorismo, já que você passou parte da vida como lutador?

Na verdade, o MMA ainda é o meu carro-chefe. Aproveitei o tempo que fiquei parado para poder empreender mais, iniciar o negócio. Hoje a minha esposa, que é minha sócia, junto com o meu irmão, tocam o negócio diretamente e eu participo mais da parte estratégica.

Como foi o impacto na sua profissão como lutador?

Não senti nenhum preconceito no universo das lutas por estar empreendendo, pois eu já tinha a academia no Brasil e já sabia como lidar com o mundo dos negócios. As maiores dificuldades, no entanto, foram estruturais, de investir o dinheiro, porque o business em si nós já conhecíamos, apesar de estar sempre tentando evoluir nessa parte de gestão, que é uma parte que qualquer empresa de qualquer área exige.

Lyoto Machida - Karate Machida

“Minha formação acadêmica e também no caratê me trouxe o que é preciso saber da parte mais técnica do negócio, estou dentro de um universo que eu conheço como empreendedor, como professor, como atleta e como aluno também”

Como tem lidado com a concorrência em um mercado como o seu?

A concorrência sempre vai existir, independentemente do negócio em que você vai atuar. No nosso caso a concorrência pela parte física é muito grande, por isso eu acredito que o nosso diferencial nos coloca à frente. Nosso estilo e nossa maneira de ensinar o lado da filosofia do caratê tiram a nossa empresa da guerra dos preços com a concorrência e nos colocam em um lugar mais único.

De que maneira a sua trajetória profissional e formação ajudaram na criação da academia?

Tenho um aprendizado muito grande com a minha trajetória como lutador e atleta. Aprendi a ter disciplina e foco, a perseguir um objetivo de maneira incansável e também a ter resiliência quando o resultado não vem. Todo esse aprendizado de treino e lutas pode ser aplicado aos negócios com muita facilidade, o modo de pensar é o mesmo. Minha formação acadêmica e também no caratê me trouxeram o que é preciso saber da parte mais técnica do negócio, estou dentro de um universo que eu conheço como empreendedor, como professor, como atleta e como aluno também. Consigo compreender as necessidades de cada área.

Como se divide entre as lutas no MMA, a sua rotina de lutador e a sua vida de empreendedor?

Hoje eu ainda dedico mais tempo à minha carreira de lutador do que à vida de empreendedor. Não estou à frente do negócio no dia a dia, participo das decisões estratégicas da empresa e sou o porta-voz por já ser uma figura pública. Para que essa divisão possa dar certo – essa é uma das dicas importantes para quem tem mais de um negócio –, eu conto com sócios que estão totalmente alinhados com o nosso principal objetivo, nossa visão e missão, e que têm as ferramentas técnicas necessárias para tocar o projeto enquanto me dedico às outras áreas.

Quais são os próximos passos?

Nosso próximo passo é, primeiramente, fortalecer essa academia e a nossa metodologia, para depois abrir outras academias dentro do mercado americano e, então, quem sabe expandir para a Europa e a Ásia, mas por enquanto o nosso mercado está em Los Angeles, e já tem muita gente pedindo para levar o nosso estilo de ensinar e nossa forma de trabalhar para os outros estados americanos.

Raio-X da Franquia:

  • Machida Academy
  • Data de fundação da empresa: 2016
  • Investimento inicial: US$ 800 mil
  • Taxa de franquia: não possui
  • Royalties: não possui
  • Faturamento médio: US$ 340 mil no primeiro ano
  • Prazo médio de retorno do investimento: a empresa atingiu o ponto de equilíbrio no primeiro ano de existência
  • Número de funcionários: 10

Crédito foto: Divulgação/ Enviada pela SigmaSix

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