Preconceito se enfrenta com fatos e números grandiosos

Comentários (0) Beatriz Bevilaqua, Startups

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua
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“Prefiro combater o preconceito com fatos, com números grandiosos e mostrar que a boa gestão e os bons resultados, não estão ligados ao gênero e sim ao perfil, a vontade  de fazer dar certo e a capacidade de solucionar problemas de formas criativas”

Agnes Cristina, fundadora da CatMyPet

Nesta coluna daremos espaço às vozes femininas do ecossistema de inovação e startups: mulheres empreendedoras, à frente de empresas que criam e aperfeiçoam novas soluções durante a crise da Covid-19. Desta vez falamos com a Agnes Cristina, fundadora da CatMyPet, que criou um higienizador para pets.  

Recentemente, nos EUA, um cachorro chegou até mesmo a ser sacrificado ao contrair o vírus mais temido da atualidade, gerando ainda mais preocupações nesse sentido. Para promover uma higienização segura, eficiente e prática, a CatMyPet criou a primeira linha de álcool em gel pet-friendly do Brasil, a Alcat.

A proposta de desenvolver o item de higiene surgiu quando, ao lado de veterinários parceiros, Agnes Cristina, fundadora e CEO da CatMyPet, viu um número alarmante de animais intoxicados com o uso do álcool em gel comum. Neste momento, a empreendedora viu que poderia contribuir com uma solução eficaz para a higienização segura dos pets após o passeio diário, evitando que os bichinhos trouxessem microorganismos perigosos para casa – incluindo o coronavírus -, sem que fosse necessário colocá-los no banho todos os dias.

Agnes conta que além da necessidade ligada à saúde e bem-estar dos animais, houve também uma motivação emocional em um momento inesperado. “Tínhamos uma campanha de adoção em andamento e para promovê-la estávamos fazendo lives diárias com veterinários e parceiros no perfil da CatMyPet, mas todos os dias, o que era para ser uma conversa leve, se transformava em um drama, pois apareciam casos e relatos terríveis de intoxicações, além de muita dúvida das pessoas sobre como manter seu pet longe do coronavírus.

Em entrevista exclusiva ao Gene PME a CEO conta um pouco da sua jornada até aqui como empreendedora à frente de uma startup, desafios, assédio, investimento e resiliência. Vale a pena conferir!
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Da onde surgiu a vontade de empreender no mercado pet?  Como foi a idealização do negócio?

A vontade de empreender vem de criança, mas nada muito estruturado, apenas um desejo. Ir para o mercado pet foi uma forma de conciliar uma grande paixão, já que sempre fiz trabalhos voluntários em ONGS. Uni isso a uma oportunidade, pois esse é um mercado em  crescimento com muitos nichos a serem explorados.

Sai de uma empresa de alimentos e comecei a pensar como esse desejo de empreender atrelado ao meu amor por animais poderia alavancar um negócio. Vi que o mercado para gatos era pouco explorado e aos poucos comecei a desenvolver a empresa, pesquisando produtos além de alimentação e utensílios como comedores, assim nasceu a CatMyPet.

Qual o seu papel hoje na empresa? Qual foi o seu maior desafio até aqui?

Como fundadora tenho um papel importante para alinhamento de cultura e visão, traçar um futuro e fazer todos do time sonharem juntos. Como gestora faço esses objetivos serem realizados alocando as tarefas aos talentos de cada um, e ajudando-os a desenvolverem seus pontos considerados fracos. 

Nosso grande desafio no começo, sempre foi recursos para viabilizar nosso crescimento acelerado. Sempre tivemos muito mais pedidos de clientes do que caixa para produzir. Começamos realmente de baixo, de um empréstimo de R$16.000 e fomos multiplicando esse valor até um valuation de 6M que concretizou a primeira rodada de investimento em 2018. Hoje, 5 anos depois da inauguração, temos um valuation estimado de 24M e desafios novos como o mercado internacional.

Você acha que fundadoras mulheres têm mais dificuldades de conseguirem investimentos e parcerias com grandes empresas?  Acha o mercado sexista?

É inquestionável que o machismo existe na nossa sociedade, assim como outros preconceitos: raciais, sociais, regionais. Infelizmente a lista é grande demais para mencionarmos. 

Isso se reflete em todos os setores, e não seria diferente no nosso mercado, não tanto no mercado pet, mas um pouco mais significativamente no mercado financeiro. Acredito que um dos motivos que originam isso, tenha relação com a pouca quantidade de mulheres nesse segmento, o que tem mudado, mas proporcionalmente ainda somos a minoria. 

Luto diariamente para mudar essa realidade, tanto através do encorajamento em trazer outras mulheres para o empreendedorismo ou para o growth nas redes que eu mentoro, quanto em apresentar resultados muito acima da média na empresa pelo qual sou responsável. 

Prefiro combater o preconceito com fatos, com números grandiosos e mostrar que a boa gestão e os bons resultados, não estão ligados ao gênero e sim ao perfil, a vontade de fazer dar certo e a capacidade de solucionar problemas de formas criativas.

Como você vê a CatMyPet dentro do cenário atual da COVID-19? Vocês desenvolveram um “álcool em gel” seguro para pets, conta como foi esse processo e o quanto alavancaram em vendas? 

Quando a pandemia começou, ficamos preocupados com o provável aumento no número de abandono de pets (isso sempre acontece em momentos de crise), por isso criamos uma campanha chamada Programa SUPER CAT, que teve como objetivo incentivar as pessoas a utilizariam da sua quarentena para ajudar um gatinho a encontrar uma família definitiva. Foi um sucesso e doamos 100% dos gatinhos da ONG parceira. Para promover o programa, fizemos lives diárias com veterinários e especialistas e foi a partir disso que descobrimos um problema que vinha aumentando a cada dia: o número de intoxicação em animais devido a ingestão de álcool gel.

Foi a partir desses diversos relatos que reunimos uma equipe multidisciplinar, e chegamos a linha de produtos Alcat, que consistem em: Alcat Pata – produto para higienização do pet que pode ser lambido; Alcat Casa – produto para a higienização do ambiente com fórmula que não agride o olfato e Alcat Gel – álcool gel para tutores com fórmula hidratante e pet friendly também.

Ficamos muito felizes com o sucesso do produto que rapidamente ganhou todo o Brasil, promovendo a higienização de um número ainda maior de pets de forma segura. Estamos orgulhosos de já termos higienizado mais de 1 milhão de patinhas em todas as regiões do país.

Como tem sido a sua rotina durante a pandemia (home office/ negócios)? Como é a sua relação com o trabalho?

Eu sou uma apaixonada pelo que eu faço, por isso não parei um dia sequer ao longo da quarentena, mas nossa equipe e nossa empresa, assim como todo o mundo teve que se adaptar. 

Adotamos diversas práticas e protocolos para aumentar a segurança do time, adotamos home office em muitas posições que permitiam esse modelo. Pessoalmente, eu tive que estar presente, em momentos de dificuldade a posição de liderança é ainda mais importante. 

Manter a moral e a esperança do time em um cenário tão incerto foram meus principais focos durante esse período.

Você já passou por algum episódio de assédio sexual ou moral dentro do ecossistema de startups?

Ao longo da minha vida, infelizmente muitas vezes, no entanto essas experiências desagradáveis tem sido cada vez raras na minha experiência pessoal – tem muito tempo que não enfrento esse tipo de situação. Sei que isso não é a realidade de todas as mulheres, infelizmente, como também já não foi a minha no passado mas tenho esperança de que o mundo esteja percebendo o absurdo disso tudo e, pouco a pouco, estamos vendo uma transformação

Quais os planos daqui pra frente? Dá pra adiantar alguma novidade pra gente?

O viés de inovação da CatMyPet está cada dia mais forte, temos alguns produtos revolucionários no forno que devem virar as próximas sensações do mercado. Enquanto eles não saem estamos expandindo a nossa abrangência e fechando acordos de exportação da linha para outros países. Tenho certeza que, em poucos anos, a CatMyPet será uma das principais marcas do setor, no Brasil.

Qual a sua mensagem para as mulheres que desejam empreender e não sabem por onde começar.

Todas as dificuldades e obstáculos extras que temos na vida, nos fazem pessoas muito mais preparadas na principal habilidade que um empreendedor precisa ter: RESILIÊNCIA. Aproveitem dessa fortaleza, acreditem em vocês e busquem se rodear de pessoas que também acreditam. O caminho não é fácil, mas a dificuldade é proporcional ao orgulho da conquista. Não desistam. Equi na CatMyPet a gente costuma brincar que “Quem não tem cão, tem que caçar como gato”.
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Imagem de capa: Ada Yokota via iStockphoto.com.

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