Precisamos falar sobre Burnout em Startups

Comentários (0) Monique Fernandes, Startups

 S T A R T U P S  | Por Monique Fernandes

Todo dia tem um novo guru de empreendedorismo nas redes sociais com frases prontas iludindo pessoas insatisfeitas com a sua vida profissional. Se utilizando de clichês, tipo: “Trabalhe com o que ama e nunca mais precisará trabalhar na vida,” esses coachs motivacionais enganam muitos profissionais frustrados, fazendo-os a acreditar que a solução para o seus problemas está em empreender e virar o seu próprio chefe.

Com um sonho na cabeça e com pouco dinheiro no bolso, muitos caem de cabeça no conto da startup própria e trabalham mais de 12 horas por dia, dormem pouco, se alimentam mal, não praticam exercícios e não dedicam tempo para o lazer e descanso, acreditando que encontraram a tão sonhada independência. Mal sabem que acabaram de entrar para a escravidão do empreendedorismo. A rotina exaustiva, aliada a facilidade de continuar conectado ao trabalho graças ao 4G e apps de comunicação em tempo real, são elementos perfeitos para nos deixar ansiosos e, consequentemente, nos levar ao Burnout.

Numa tradução livre do inglês, Burnout significa “totalmente queimado.” É um nível de estresse extremo em que leva o profissional a exaustão física e mental. Vivendo em uma sociedade que valoriza o “estar sempre ocupado,” não é de surpreender que a síndrome de Burnout será oficialmente inserida na Classificação Internacional de Doenças (CID), pela a Organização Mundial de Saúde, em 1º de janeiro de 2022, como uma síndrome ligado ao trabalho.

Em pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo, em 2019, aponta que o Burnout tem sintomas similares aos de ansiedade e depressão, porém, a diferença é que o fator determinante para essa síndrome é única e exclusivamente o trabalho. A pesquisa da USP apontou que um em cada cinco brasileiros sofre de Burnout. De acordo com os dados coletados, significa que metade da força de trabalho do Brasil vivencia esse mal.

Startups: Uma máquina de moer gente

Vivendo em um ambiente que leva a esgotar profissionais, aliado aos avanços da tecnologia, as dinâmicas empresariais, mudanças na sociedade e no mercado de trabalho, saúde mental em dia é um luxo para qualquer trabalhador. Para um empreendedor então, nem se fala. O tempo todo com diversas preocupações em mente, que vão desde a gestão da empresa até a manutenção do emprego da equipe, são muitas cobranças diárias.

O ecossistema de startups é extremamente nocivo para a saúde mental de qualquer ser humano que nele habita. Seja funcionário, fundador, gerente, ou CEO, não tem hierarquia nesse momento que proteja o lado psicológico. Todos estão com a saúde mental comprometida. Eu sempre digo que, quando andamos pelos bastidores, escutamos histórias de funcionário que foi demitido logo após apresentar um atestado médico assinado por um psiquiatra justificando a ausência, ou de CEO que foi afastado do cargo pelo board por ter parado na emergência médica pensando que estava infartando, quando na verdade, era uma crise de ansiedade.

Eu não tive uma startup, mas eu trabalhei no ecossistema por mais de sete anos atendendo diversas startups, investidores e aceleradoras do mercado. Eu tinha uma assessoria de comunicação e o meu negócio não se enquadrava no quesito escalável tão sonhado pelos startupeiros. Quase que diariamente, eu recebia “conselhos” de amigos e clientes de que deveria mudar meu negócio de alguma forma que se tornasse altamente escalável e pudesse faturar rios de dinheiro. Durante muito tempo, além dos desafios diários de gerir a minha empresa, eu me sentia na obrigação de escalar o meu negócio, sem nem mesmo me perguntar se, de fato, queria ter um negócio escalável.

Como descobri o Burnout e saí dele?

Além da pressão da escalabilidade, eu tinha a pressão do dia a dia da empresa: gestão e prospecção de clientes, impeachment da presidente derrubando matéria já gravada, gestão da equipe, reuniões, viagens, eventos, acompanhar clientes em entrevistas, ufa… o puro creme do glamour empreendedor de sucesso, só que não. Anos de trabalho sem férias, dormindo pouco, me alimentando mal, vivendo uma jornada 14 horas de trabalho diárias emendadas com o fim de semana sem pausa, foi inevitável o Burnout.

Percebi rapidamente os sintomas por já ter visto uma outra empreendedora passando pelo mesmo problema, isso agilizou o meu diagnóstico. Dificuldade para dormir, dificuldade para acordar, irritabilidade em nível bem alto, congelar na frente da tela de e-mail da empresa, entrar em pânico com a chegada da segunda-feira, evitar, ao máximo, ficar no escritório e delegar todo o contato com clientes para a equipe.

Se o trabalho era a causa do meu Burnout, portanto, a única forma que tinha de sair daquele estado era atacando a causa do problema. Na minha visão, a única saída que tinha era acabar com a empresa. E foi o que fiz. Coloquei clientes e funcionários em aviso prévio, voltei para a terapia e fui obrigada a tirar uns meses para descanso. Independente de poder, ou não, financeiramente falando, era recomendação médica parar de trabalhar. Fui forçada a fazer algo que poderia ter feito, com planejamento, alguns anos antes.

O que fazer para evitar o Burnout?

A dor me ensinou que trabalhar demais e acumular riquezas não adianta de nada, pois morremos e deixamos tudo o que ganhamos, em vida, para os herdeiros. Pode parecer filosofia barata, mas a verdade é que dinheiro e status não valem a nossa vida, então, aqui vão algumas dicas para que você não passe pelo que passei:

  • Tenha horário para começar e encerrar o dia de trabalho;
  • Não durma com o celular no quarto;
  • Acorde com calma, tome café da manhã, para depois pegar no celular;
  • Desligue notificações de aplicativos durante o dia de trabalho;
  • Trabalhe na sua demanda e de acordo com a sua lista de prioridades e não na demanda dos outros;
  • Tire férias, no mínimo, uma vez ao ano;
  • Não trabalhe nos fins de semana;
  • Faça atividade física;
  • Tenha tempo para a sua família;
  • Medite! Pode parecer bobeira, mas ajuda muito. Acredite!
  • Independente de qualquer coisa, faça terapia!

Caso você tenha se reconhecido nesse texto e já esteja no processo do Burn-out, meu conselho para você é: busque ajuda o mais rápido possível. Procure um psiquiatra e um psicólogo o quanto antes. Sim, você vai precisar desses dois profissionais para te ajudar a sair desse cenário. Mais um conselho de quem já esteve onde você está: vai passar! Respira fundo, descansa e viva um dia de cada vez. Você vai conseguir sair dessa!

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