Precisamos falar sobre a Cultura do Estupro nas Startups

Comentários (0) Monique Fernandes, Startups

 S T A R T U P S  | Por Monique Fernandes
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Há três semanas eu publiquei um texto explicando os motivos pelos quais me afastei do ecossistema de startups depois de sete anos de muito trabalho. Esse texto gerou muitas discussões e reflexões no mercado, o que me trouxe o convite para escrever para o Gene PME. Por isso, quero inaugurar meu espaço aqui trazendo uma das principais reflexões geradas por esse conteúdo. Portanto, precisamos falar sobre a Cultura do Estupro, que está presente em toda nossa sociedade e no mercado de startups não seria diferente.

O termo “Cultura do Estupro” foi cunhado na década de 70, nos Estados Unidos. Hoje esse termo é adotado por diversas entidades, inclusive a ONU, para descrever uma sociedade em que a violência sexual é normalizada através da cultura popular. Não necessariamente precisa ser um homem que pratique a violação sexual, de fato, para reforçar essa cultura. A disseminação de termos machistas, a objetificação dos corpos femininos, o reforço de estereótipos, piadas sexistas, compartilhamento de vídeos e fotos, e o consumo de músicas que desqualificam as mulheres, são exemplos de contribuição para o reforço da objetificação da mulher e a perpetuação da cultura do estupro.

De acordo com um levantamento feito, em 2019, pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups), apenas 15% das startups brasileiras são lideradas por mulheres. Com um mercado dominado por 84,3% de empresas fundadas por homens, o ambiente é hostil às mulheres que buscam entrar nesse mercado dos sonhos que é vendido nas matérias sobre o setor.


A perpetuação dessa Cultura do Estupro não tem a ver com a quantidade de homens que lideram startups, mas com a mentalidade de muitos deles que estão entre os que mais mentoram e dão palestras pelo Brasil.


Os eventos são a porta de entrada de muitas mulheres ao ecossistema de startups e merecem uma atenção especial de quem faz a programação destes.

O ambiente de startups é mais hostil às mulheres do que se pensa. Desde que publiquei o meu texto, diversas mulheres traumatizadas me procuraram para relatar o que sofreram em empresas pelas quais passaram, como assédio moral e sexual – seja pelos chefes, ou investidores – e, até mesmo, tomei conhecimento de diversos casos de estupro. Nos eventos, muitas viram troféus de apostas em rodinhas de homens, que apontam quais serão as “presas” daquela noite. Comentários sobre as roupas que as mulheres usam, cor de batom e qualquer outro comportamento que o machismo condene. Além da já habitual desqualificação intelectual a qual as mulheres estão, infelizmente, acostumadas no mercado de trabalho. Seja a falta de voz ao apresentar ideias em reuniões, salários abaixo do mercado por engravidarem, ou perderem vagas de trabalho por terem filhos e precisarem se ausentar do trabalho no caso das crianças ficarem doentes. Tudo isso são comportamentos que reforçam a Cultura do Estupro no ecossistema de startups.

Para termos mais mulheres fundadoras, ou fazendo parte dos times de startups que já estão no mercado, precisamos mudar esse cenário. É preciso mudar cultura. Isso é trabalhoso, mas não é impossível. É necessário fazer um trabalho educativo, onde as pessoas denunciem e apontem esses comportamentos não condizentes com um ambiente amigável para mulheres. Procurem a delegacia de mulheres para registrar os casos de estupros e abusos. Reúnam provas. Processem as empresas que se negarem a cumprir as leis. É necessário mais textos que provoquem discussões e a revisão dos comportamentos. É preciso questionar o status quo. Para mudar uma cultura, é necessário enfrentar a pressão da possível retaliação do mercado. É preciso enfrentar o medo do “mercado fechar as portas para você.” Só assim, conseguiremos mudar essa realidade e tornar o ecossistema de startups um ambiente amigável para mulheres.

Um pouco sobre mim

Curiosa por natureza, sempre busquei conhecer as histórias por trás das pessoas. Afinal, não existe nada mais poderoso no mundo do que uma boa história. E, se existe algo que amo na vida, é contar histórias.

A graduação em Comunicação Social lapidou o que eu fazia intuitivamente desde a infância. O jornalismo me trouxe técnicas para contar as histórias a quem busca estar atualizado. O MBA em Marketing me trouxe as ferramentas para conectar as histórias das marcas com o seu público-alvo e fazer as ações das empresas serem mais efetivas. A minha vivência me fez ter o olhar para conseguir transformar as informações que recebo num storytelling que nos conecta ao outro.

Durante 14 anos, utilizei a assessoria de imprensa para contar histórias de empresas, como WeDoLogos, Endeavor, E-Commerce Brasil, Performa Investimentos, TI Rio, Cabify, Camiseteria, dentre outras.

Em 2017, ganhei o prêmio Startup Awards de Profissional de Imprensa, promovido pela Associação Brasileira de Startups.

Hoje, eu conto histórias produzindo conteúdo através de artigos no meu site e minhas redes sociais, além de produzir conteúdo para empresas e pessoas.

Como uma boa carioca, o mate é meu combustível e conversar é minha vocação.
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Imagem de capa: holaillustrations via istockphoto.com

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