Por quê mulheres são mais demitidas e sobrecarregadas durante a pandemia?

Comentários (1) Beatriz Bevilaqua

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua
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Com a crise da Covid-19 o desemprego vem aumentando alarmantemente. O cenário é ainda mais dramático para as mulheres e empurra boa parte da força de trabalho feminina de volta para casa. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) mostrou que 7 milhões de mulheres abandonaram o mercado de trabalho na última quinzena de março, quando começou a quarentena. São dois milhões a mais que o número de homens na mesma situação. Além da demissão, elas têm mais dificuldades para procurar uma vaga e se manter no mercado.

Se antes as mulheres já eram sobrecarregadas, agora o desafio é ainda maior com o isolamento social, crise econômica, serviços domésticos e escolas fechadas (sem contar com o aumento da violência doméstica nas residências). Além disso somos nós as mais demitidas quando retornamos de licença maternidade: 4 em cada 10 mulheres que voltam de licença maternidade são desligadas. Este dado é com base na pesquisa realizada pela Robert Half em 2019. Também ganhamos 25% a menos do que homens, ocupando o mesmo cargo e desenvolvendo as atividades de forma igual. 

Na coluna de hoje trouxemos uma grande empreendedora e especialista em RH que criou um jeito de desburocratizar e “humanizar” o processo de desligamento de funcionários, garantindo o controle de prazos e a gestão dos documentos para que o fim da jornada do colaborador se dê de forma personalizada e mais transparente. Fernanda Medei é fundadora da Medei, uma RHTech com 9 anos de mercado que traz tecnologia na gestão de homologações. A empresa obteve 15% de crescimento durante a pandemia.

Fernanda Medei, fundadora da Medei, uma RHTech com 9 anos de mercado.

Da onde surgiu a ideia da Medei?

A ideia da startup surgiu quando vivenciei na pele a dor de muitos funcionários no momento do desligamento: foram 120 dias até ser homologada. A partir dessa experiência decidi desenvolver uma plataforma que otimiza e facilita os processos de desligamento do começo ao fim.

O que é uma demissão humanizada? As mulheres são mais demitidas no mercado? Qual a sua opinião pessoal sobre o contexto que vivemos atualmente?

A demissão humanizada é uma forma de diminuir o impacto (ou dor) de quem está sendo demitido. Deve ser sempre utilizada, com empatia e transparência dos motivos da finalização deste relacionamento.

As mulheres são demitidas especialmente quando retornam de licença maternidade. Ainda é necessário ter uma mudança de mentalidade nas empresas. As mães são extremamente comprometidas com resultados. Imagine que ela é responsável por gerir a vida de uma criança, cuidar da casa e ter uma carreira.  A mulher assume múltiplos papéis, porém, ao ser mãe ainda carrega um estigma que não tem condições de assumir novos desafios de sua carreira. 

Você já passou por alguma situação sexista no ecossistema de startups? Poderia compartilhar conosco?

Sim. Numa determinada apresentação de pitch, após eu finalizar a apresentação, percebi que algumas pessoas da banca dirigiam as perguntas ao co-founder por ser homem. Fiz algumas respostas onde foi solicitado que o co-founder respondesse diretamente, não eu e foi extremamente constrangedor.

Você acha que as mulheres estão mais sobrecarregadas durante o isolamento social?

Sim, com toda certeza. No momento que vivemos de isolamento social em razão da pandemia pelo Covid-19, as mães estão sob grande estresse, pois, estão em casa com filhos sem poder ir a escola, assumindo a jornada de profissional, mãe, e dona de casa (tudo ao mesmo tempo) e isso gera um esgotamento mental, podendo gerar como consequência um Burnout. Imagine essas mulheres com tantos papéis e com cobranças por resultados, sem ter a empatia de seus gestores? Infelizmente isso tem acontecido e com grande recorrência.

O que fazer neste período de pandemia para se recolocar no mercado?

Vejo que o ponto chave é analisar se de fato a carreira que você ocupa faça sentido em sua vida. Se sim, estabelecer contatos nas redes sociais profissionais, atualizar o currículo, fazer alguns cursos (existem muitos cursos gratuitos e de boa qualidade), estudar a empresa que você deseja trabalhar.

Se a carreira que você está não faz mais sentido, faça uma auto avaliação e entenda quais são os pontos que te chamam a atenção. Prepare-se para migrar sua carreira: estude, converse com profissionais que exerçam esta atividade e vá sem medo para esta nova função.

A pandemia acelerou a digitalização do RH? Como você vê o cenário pós pandemia? 

Sim, acelerou e muito. Em 2019, algumas empresas estavam olhando a digitalização das atividades de RH, com olhar dos profissionais da área de inovação. Com a pandemia, os 15 primeiros dias equivaleram anos de avanço na digitalização do setor de RH. Vejo saldo positivo no olhar das empresas em fazer suas atividades de forma mais objetiva, descomplicada e digital. É uma tendência que veio para ficar. 

Alguma dica para as mulheres que desejam empreender?

Seja persistente. Estude, analise o mercado que deseja empreender, fale com seu público alvo, tenha uma gestão financeira (saiba quanto você precisa ganhar para pagar as despesas) e especialmente, faça tudo com amor. A persistência será a chave para não desistir.
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Imagem de capa: Grae Dickason por Pixabay

One Response to Por quê mulheres são mais demitidas e sobrecarregadas durante a pandemia?

  1. bob gebara disse:

    Matéria excelente!

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