Mulheres se destacam no ecossistema de startups durante pandemia global

Comentários (2) Beatriz Bevilaqua, Startups

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua
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Há 8 anos vi o surgimento ainda embrionário do ecossistema de inovação e startups no Brasil, na época eu ainda morava na capital paulista e tive a tremenda sorte de conhecer de perto grandes feitos em programas de aceleração, startup weekends e outras iniciativas incríveis de fomento ao empreendedorismo e tecnologia, mas uma coisa me incomodava muito: Onde estavam as mulheres? 

Em 2013 não era tão fácil encontrar uma mulher CEO, investidora e mentora – tínhamos pouca voz nesse nicho. A verdade é que o sexismo ainda é um tema bastante difícil no Brasil, sobretudo no ambiente tecnológico, mas ainda bem que as coisas vem mudando e cada vez mais estamos ocupando espaços que antes eram majoritariamente masculinos. 

Prova disso são as capas inéditas deste ano que chamaram bastante atenção do público: na Forbes Brasil com a fundadora da Nubank, Cristina Junqueira, exibindo seu barrigão à 3 dias de dar a luz (lembrando que ainda hoje em pleno século XXI, maternidade e negócios não são vistos com bons olhos). A capa histórica teve ampla repercussão, qual seria o motivo? Não seria possível empreender e estar à frente de uma empresa sendo mãe? 

Outra publicação que viralizou foi da Revista Exame, que pela primeira vez trouxe uma empreendedora negra na capa: Maitê Lourenço, fundadora do BlackRocks Startups, uma aceleradora de startups que promove o protagonismo da população negra. Dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) apontam que no ano passado, cerca de 15% dos mais de 12 mil negócios foram fundados por mulheres. A balança está pendendo, aos poucos, para o lado feminino da força. Este novo cenário ficou ainda mais evidente no último “Startup Awards”, maior prêmio de empreendedorismo, inovação e startups do Brasil onde vi mais mulheres subirem ao palco, inclusive eu (chorei demais de emoção). 

A verdade é que hoje a crise sanitária que vivemos tem afetado todos os setores em efeito dominó na economia brasileira, mas quem inova e compreende as novas demandas dos clientes, larga na frente. Não existe outro caminho: as empresas e também às pessoas que forem mais adaptáveis conseguirão sobreviver e se destacarem no mercado – e as mulheres sabem se adaptar muito bem aos novos desafios. A resiliência é a palavra da vez!

Quero destacar algumas iniciativas fundadas por mulheres que têm conseguido crescer e se adaptar mesmo em meio à tamanha crise global, vale a pena conhecer:

1- Aceleradora B2Mamy

A B2Mamy é uma aceleradora que conecta mães ao ecossistema de inovação. A empresa foi fundada em 2016 pela Daniela Junco e nos últimos três anos acelerou 170 negócios tocados por mães-empreendedoras que, juntos, faturaram R$ 6 milhões. Além disso, a B2Mamy inaugurou no final do ano passado o primeiro espaço exclusivo às mães-empreendedoras no Brasil num galpão de 400 m² na Zona Oeste de São Paulo. Eu a entrevistei para meu canal no Youtube. 

Dani Junco, da B2Mamy

Nesse período de crise a B2Mamy lançou uma plataforma de realidade virtual em que mães podem acessar conteúdos educativos, trocar informações entre si e receber descontos e benefícios de marcas parceiras. O projeto foi desenvolvido a partir da crise causada pelo novo coronavírus. Com a casa da B2Mamy fechada para receber as empreendedoras, a CEO Daniela Junco, percebeu que precisava oferecer novas soluções digitais. A empresa recebeu em maio deste ano investimento de 600 mil reais de um grupo de anjos para começar novo projeto. 

2- Vittude

A startup Vittude é referência em psicologia online no Brasil, uma plataforma pioneira no ramo de saúde mental que conecta psicólogos e pacientes em menos de 1 minuto. A empresa tem visto aumentar abruptamente o número de pacientes em 400%, o de psicólogos cadastrados na plataforma crescer 32,5% e o agendamento de consultas online aumentar 230%.

Tatiana Pimenta, da Vittude.

Criada em 2016 por Tatiana Pimenta, a empresa cresce em ritmo acelerado. No final de 2019, a startup recebeu um aporte de R﹩ 4,5 milhões para investir na ampliação do Vittude Corporate. A rodada foi liderada pela Redpoint eventures. Atualmente, a startup já está presente em mais de 50 países, com mais de 110 mil usuários e cerca de 5.500 psicólogos cadastrados. Agora em maio foi uma das 10 startups selecionadas pelo Google for Startups Brasil para sua quinta turma de residência. Eu a entrevistei para meu Canal no Youtube.

3- RadarFit

A RadarFit é uma das poucas startups do mundo fundada somente por mulheres. As sócias Jade Utsch e Jennifer De Faria eram amigas desde a época de escola e as duas conheceram a Tatiany Ribeiro durante o processo de aceleração de startups da Startup Farm. O trio então se uniu com o objetivo de criar uma solução que pudesse melhorar a qualidade de vida das pessoas de maneira divertida e eficiente.

As fundadoras da RadarFit.

As fundadoras desenvolveram um aplicativo de jogo online que engloba todas as vertentes ligadas a saúde, bem-estar e fitness. Este ano a empresa recebeu um investimento milionário de um fundo e cresceu mais de 1000% em número de usuários e faturamento durante a quarentena. Esse período de isolamento social pode ter ampliado a importância de atividades físicas em casa e, sobretudo, a importância de um estímulo para a vida saudável. 

4– Programaria 

A Programaria é um negócio de impacto social que atua na formação e engajamento de mulheres na tecnologia para diminuir o gap de diversidade nas empresas, facilitando a conexão e a contratação desses talentos, por meio de cursos, eventos e outras ações. A Iana Chan é quem fundou a startup, ela é empreendedora social apaixonada por tecnologia e educação. 

Com a pandemia, a empresa teve que migrar todas às ações para o online, foi criado o formato da Sprint PrograMaria, uma jornada online e gratuita de conteúdo, em parceria com a Intel e tiveram mais de 2300 inscritas de todo país e de outros lugares do mundo. Também adaptaram o PrograMaria Encontros, evento de fomento para mulheres na tecnologia, para o online, realizando edições com o Grupo Boticário. Além disso, lançaram o produto B2C, o Curso Online Eu Programo é uma introdução ao desenvolvimento front-end, e já estão com mais de 500 matriculadas para a primeira turma. Fecharam também mais 1500 bolsas de estudo oferecidas pela Wildlife para as próximas turmas.


Os desafios nessa Jornada

Apesar de estarmos conquistando lugares que antes não existiam para nós, ainda hoje somente 30% de todos os negócios privados do mundo são operados ou têm como idealizador uma mulher e menos de 10% das empresas lideradas por mulheres recebe investimento externo. Por outro lado, um estudo recente da The Boston Consulting Group (BCG), revela que apesar de menos investimentos, faturamos mais em nossos negócios. Segundo a pesquisa, para cada dólar de financiamento, as startups com mulheres fundadoras geraram 78 centavos, enquanto as fundadas por homens renderam menos da metade disso (31 centavos).

Em termos globais, o ano passado tivemos o melhor período da história para fundadoras pelo mundo. Em 2018, havia 15 unicórnios (empresas com valuation de 1 bilhão) com ao menos uma cofundadora à frente do negócio. Já no último ano, foram 21 startups lideradas por mulheres que atingiram o status de unicórnio. As informações são da base de dados americana Crunchbase.

A minha previsão é que veremos cada vez mais mulheres ganhando destaque no mercado –  ao mesmo tempo tenho visto também mais homens deixando de lado o machismo enraizado de gerações.

O principal desafio é superar os estereótipos sobre a capacidade e o papel das mulheres em diferentes esferas da sociedade e como incentivá-las a assumirem papéis de liderança para diminuir algumas das desigualdades sistêmicas no mercado.

Não teremos qualquer avanço enquanto esperarmos que as mulheres deixem o trabalho ao ter filhos – se fizerem isso por obrigação e não por escolha. Ou se aceitarmos que elas optem por um emprego ruim e mal remunerado para conciliar a vida profissional com os cuidados da casa. Há muito que avançar por parte das empresas, das leis e da própria sociedade como um todo, mas seguiremos lutando e conquistando novos espaços.
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Foto de capa: sturti via iStockphoto.com

2 Responses to Mulheres se destacam no ecossistema de startups durante pandemia global

  1. Demais! Ótimo artigo Bia

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