Mulheres no Comando: Renata Petrovic, do hub Inovabra Habitat

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 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua


“Minha missão no Inovabra Habitat é garantir que todos tenham acesso às oportunidades de negócios para as quais estão preparados, sem viés de gênero ou raça”

Renata Petrovic
Head do Inovabra Habitat –  ambiente de coinovação do Bradesco


As mulheres no Brasil ocupam hoje 34% dos cargos de liderança nas empresas, de acordo com a pesquisa mais recente do International Business Report da Grant Thornton, realizada com 4.812 empresas, em 32 países, há mais de 15 anos. O estudo aponta que o Brasil ocupa hoje a 8º colocação no ranking dos 32 países, que é liderado pela Filipinas (43%), depois África do Sul (40%), Polônia (38%), México (37%), Indonésia (37%), Nigéria (36%) e Turquia (36%). O Brasil hoje está acima da média global que é 29% dos cargos de liderança sênior sendo ocupados por mulheres, além de ter saltado 9% em relação aos dados de 2019, quando o Brasil tinha apenas 25% dos cargos sendo ocupados por mulheres. 

Nesta série de reportagens, convidamos as mulheres mais poderosas do ecossistema de startups brasileiro para falarem sobre empreendedorismo feminino, desafios e oportunidades no mercado que está a todo vapor. Nossa primeira convidada a participar da coluna é a Renata Petrovic – uma mulher com um currículo extenso, de altos cargos executivos e resultados surpreendentes. Ela está à frente de um dos mais reconhecidos Hubs do país, o Inovabra Habitat –  ambiente de coinovação do Bradesco, com atuação física e digital, onde grandes empresas, startups, investidores, tech partners, consultores e mentores trabalham de forma colaborativa para gerar novos negócios

Quando Renata ingressou na empresa, o ecossistema inovabra ainda estava em construção. Com o passar do tempo e com algumas ações estratégicas, o espaço foi atraindo cada vez mais startups. Já no primeiro ano de operação, o Hub atraiu quase 200 startups para serem residentes e com nível de maturidade alto. A tese de ocupação tem até hoje um rigor de seleção de startups de altíssimo potencial para fazerem negócios digitais com grandes empresas. Renata tem o olhar clínico para buscar soluções para desafios específicos, mantendo-se aberta à novas soluções que não estão necessariamente no radar. 

Neste ano tão instável e turbulento, nossos desafios foram ainda maiores e a colaboração tem sido essencial em todos os ambientes. Nessa entrevista falamos também sobre transformação digital, desafios, aprendizados e tendências daqui em diante. Acompanhe o bate-papo que tivemos com essa talentosa profissional.

Você está à frente do Inovabra Habitat e tem passagens por grandes corporações nacionais e internacionais. Como vê a evolução do mercado?

Hoje o que eu vejo é muito estimulante: existe uma enorme oferta de ótimos empreendedores com boas ideias e investidores para financiar o caminho de crescimento. Por outro lado, as grandes empresas e instituições financeiras também acordaram para a necessidade da inovação aberta, o que traz uma espécie de corrida do ouro para identificar as melhores oportunidades de mercado. O Brasil se tornou um Hub importante no mapa global do empreendedorismo e tem atraído startups internacionais de alto calibre. Por fim, a pandemia jogou ainda mais luz em tudo isso fazendo com que a inovação ganhasse um senso de urgência. Ou seja, em quatro anos o mercado mudou brutalmente e quem sabe o que vem pela frente…

Você acha que existe muita diferença no olhar de liderança entre homens e mulheres na execução de Hubs de Inovação? O que você deseja fazer pela inovação aberta no Brasil nos próximos anos? Acha que faltam mais mulheres no ecossistema?

Existem diferenças já muito conhecidas de lideranças de negócios entre homens e mulheres em geral, e para os hubs de inovação não é diferente. Minha missão no inovabra habitat é garantir que todos tenham acesso às oportunidades de negócios para as quais estão preparados, sem viés de gênero ou raça.

Desde o início, o inovabra sempre se dedicou a contribuir para o crescimento das startups através da geração de demandas de negócios para elas. Trabalhamos com startups que já têm seu produto validado, estão tracionando, tem clientes e um faturamento recorrente. Atuamos em dois caminhos. O primeiro deles é entender as demandas e desafios de negócios das corporações, aí incluindo o próprio Bradesco, e encontrar as melhores soluções de startups para fazer o matching. A equipe de coinovação trabalha com as empresas no entendimento destas necessidades, fazendo diversas dinâmicas e workshops para refinar os desafios a serem lançados. A partir deles fazemos scouting e curadoria para trazer as melhores soluções para cada problema.

O outro caminho é identificar startups que têm soluções transformadoras e provocar as corporações com esses produtos que elas não haviam pensado que precisavam. Estamos o tempo todo fazendo conexões com os empreendedores através de networking, seja através de eventos, leads de parceiros ou simplesmente conhecendo aquelas que nos procuram. Por termos uma operação do inovabra fora do Brasil, em Nova York, também avaliamos muitas startups internacionais para fazerem negócios com o Bradesco.

Temos, adicionalmente, o nosso próprio fundo de venture capital, o inovabra ventures, que está o tempo todo com visibilidade em startups de alto potencial para serem investidas. As oportunidades de negócios que passam pelas nossas mãos são muitas, vindas do lado da demanda ou da oferta por inovação. Meu grande desafio é garantir o matching bem-feito entre elas e, ainda, estar atenta para as soluções de maior potencial transformador que possam fazer a diferença nos negócios do banco.

Dentro deste processo, e voltando à questão inicial, a missão é garantir que tudo isto ocorra sem discriminação ou estereótipos, assegurando a diversidade e inclusão, e dando chances para que tenhamos representatividade de etnias, raça e gênero no nosso pool de parceiros.

Qual foi o maior desafio de sua carreira até hoje? Como conseguiu lidar? 

O período de pandemia fez com que eu colocasse em perspectiva todos os desafios profissionais do passado, que até então pareciam ter sido gigantes. Acredito que a vida profissional nos apresenta, de tempos em tempos, grandes provas para nossa resiliência e crescimento. Durante toda minha carreira passei por várias delas, quer seja lidando com cenários inesperados, concorrentes novos, mudança de gestão ou simplesmente tentando superar deficiências pessoais. Mas acredito que sobreviver a 2020 com certeza ficará entre os principais desafios pra mim.

No início da pandemia precisávamos manter o ecossistema vivo, nosso espaço de coinovação operante e, ao mesmo tempo, garantir que estávamos conseguindo entregar valor para todos os nossos habitantes. E, em paralelo eu tinha que garantir uma equipe motivada, com segurança e eficiente na nova forma de trabalho à distância. Foi bastante complexo. Nossa taxa de ocupação, que sempre foi máxima, caiu 30% de repente, começamos a questionar nosso modelo de negócio sem ter visão clara de para onde poderíamos caminhar.

Muito rapidamente mudamos toda nossa operação para o remoto, incluindo os eventos, internos e externos, dinâmicas, workshops e intensificamos a quantidade de atividades. Isto nos permitiu assegurar que as conexões entre os membros continuassem ocorrendo. Também nos dedicamos a promover muita troca de aprendizados entre as corporates, que passaram a compartilhar entre si as soluções e melhores práticas no cenário da pandemia. Adicionalmente, compilamos um book com soluções de startups de todo o ecossistema inovabra, com mais de 100 soluções relevantes para as áreas de saúde, RH, educação, logística, transformação digital, entre outras. O book foi ativado através das redes sociais, newsletter e eventos, trazendo bastante visibilidade para as startups e gerando negócios. Aliás, quase metade das startups do inovabra habitat conseguiram crescer substancialmente seus negócios aproveitando oportunidades que não existiam antes da crise. Exemplos: área de cibersegurança, logística, educação remota, saúde remota, e-commerce, atendimento digital de clientes, entre outros.

No fim das contas, este momento acabou trazendo um enorme aprendizado a todos e, por conta dos bons resultados, nos fez decidir ampliar definitivamente o modelo de operação do habitat para um formato híbrido: físico e digital.

Tem algum conselho para as mulheres que se inspiram na sua jornada até aqui e que gostariam de conquistar altos cargos executivos.

Pra dizer a verdade, eu mesma nunca pensei sobre o fato de ser mulher e quanto isso poderia me impedir de chegar aonde eu queria. Trabalhei em indústrias predominantemente masculinas (automotiva e financeira) e, sinceramente, nunca me senti preterida dentro delas. Acredito que os maiores obstáculos ao nosso próprio crescimento estão dentro de nós mesmas. Ainda carregamos muitos vieses inconscientes que comprometem a autoconfiança. Vejo muitas mulheres extremamente competentes achando que não estão preparadas o suficiente para assumir mais responsabilidade.

Cada vez mais as empresas estão direcionando esforços para atenuar as diferenças que ainda existem entre o número de mulheres e homens em cargos de liderança e no conselho. Ao meu ver, mulheres preparadas e com desejo de ascender têm toda a chance. Temos que sonhar grande, acreditar em si, agir com atenção e intenção. Não digo que é fácil, mas é totalmente possível.

Como você vê o futuro dos espaços compartilhados? Teremos mais modelos híbridos? Acha que um dia o físico será totalmente substituído pelo digital?

O grande valor dos espaços compartilhados é a capacidade de gerar conexões frutíferas. Neste sentido, acredito que o espaço físico ainda tem um papel relevante a desempenhar, especialmente quando estamos falando de inovação.  A tão falada serendipidade, ou a capacidade de descobrir coisas boas por mero acaso, não consegue ser reproduzida através de ferramentas tecnológicas, ainda. O contato humano e a espontaneidade trazem toda uma camada de conteúdo importante para processos de co-criação. A imersão em um ambiente com pessoas inspiradoras é fonte de transformação cultural para as organizações.

Por outro lado, nossa experiência de março a agosto deste ano nos mostrou que era possível ativar conexões remotas de forma eficiente. Conseguimos gerar mais de 50 contratos entre os habitantes durante este período.

Mesmo antes da pandemia já havíamos iniciado o desenho de um modelo que pudesse abranger empresas de todo o Brasil, através da plataforma digital. Com a experiência, tivemos a comprovação que este modelo funciona bem. Portanto agora estamos lançando o habitat digital como uma extensão para atender empresas de fora de São Paulo, mantendo o modelo de posições físicas para as empresas que desejam ter o ambiente do habitat como central na jornada de inovação e transformação cultural dos seus funcionários. 

Estou assistindo o mesmo caminho sendo percorrido por outros hubs de inovação. A tendência, na minha opinião, é termos realmente estes modelos híbridos, onde o espaço físico passa a ser usado de forma mais planejada, para servir de ponto de encontro e experiência.  O modelo digital complementa, aprofunda as conexões e serve como o dia-a-dia dos projetos.

Se o físico será substituído totalmente pelo digital, acho cedo para afirmar. Os encontros pessoais são parte da essência humana. Tendo a oportunidade, e sendo de forma segura, dificilmente desaparecerão. Mas, quem sabe o futuro? Talvez em menos tempo que imaginamos estaremos todos nos relacionando através da realidade virtual e os hubs de inovação serão apenas cenários temáticos que reúnem comunidades dentro desse novo mundo.

Por enquanto, seguimos com as inúmeras oportunidades de negócios e inovação que existem e podem ser trabalhadas no mundo físico e digital.

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