Mulheres no Comando: Livia Brando, Country Manager da Wayra Brasil

Comentários (0) Beatriz Bevilaqua, Startups

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua


Vejo a diversidade exercendo um papel fundamental para as lideranças não apenas de hubs de inovação, mas também no mercado de venture capital e na liderança das startups, em seu quadro C-level, que infelizmente ainda são compostos por liderança majoritariamente masculina


Nossa entrevistada dessa semana é a Livia Brando – uma mulher de personalidade forte que pivotou a própria carreira e assumiu há poucos meses o cargo de Country Manager da Wayra – hub de inovação aberta da Vivo no Brasil. Nessa reportagem ela nos conta sobre os seus maiores desafios e traz dicas de ouro para quem deseja seguir os mesmos passos.

Natural do sul de Minas Gerais, ela diz ter “virado a chave” para atuar com inovação quando se mudou para São Paulo, sete anos atrás. Para Lívia, assim como o mercado, as profissões também evoluem, por isso em 2016 ela fez uma transição de carreira para trabalhar como gestora de inovação na EDP Brasil – com a missão de criar a área do zero. Desde então, ela pôde atuar diretamente com esse nicho específico desenvolvendo aceleração de startups, programas de cultura interna de inovação e prototipagem.

Em paralelo, o ecossistema brasileiro de startups foi crescendo à todo vapor, tanto no aumento de investimento em venture capital, quanto no nível de maturidade das startups e de empreendedores – só esse ano as startups brasileiras receberam uma injeção de R$ 12,3 bilhões (US$ 2,2 bilhões) e não param de surgir novos unicórnios. 

Confira abaixo o nosso bate-papo com a Lívia sobre carreira, liderança feminina e as novas tendências do mercado:

“Muitas vezes precisei demonstrar um nível de preparo muito superior a um candidato do gênero masculino para almejar a mesma oportunidade. Era comum participar de reuniões com a alta gestão com muitas pessoas, sendo a única mulher na mesa”

Você acha que existe muita diferença no olhar de liderança entre homens e mulheres na execução de Hubs de Inovação?

Há diferenças em muitos aspectos, não apenas pelo gênero, mas também idade/geração, raça, cultura e tantas outras dimensões que refletem a variedade que temos em nossa sociedade e nos mercados consumidores. Focando na questão do gênero, sem dúvida as mulheres têm um olhar diferente sob diversos aspectos no que tange a colaboração, a análise de um produto/serviço ou mesmo a forma de fazer negócios. É justamente esta complementaridade que agrega os diferentes pontos de vista que geralmente eleva as discussões para se chegar a um resultado melhor do que se chegaria tendo um grupo homogêneo. Desta forma, eu vejo a diversidade exercendo um papel fundamental para as lideranças não apenas de hubs de inovação, mas também no mercado de venture capital e na liderança das startups, em seu quadro C-level, que infelizmente ainda são compostos por liderança majoritariamente masculina.

O que você deseja fazer pela inovação aberta no Brasil nos próximos anos? 

Ainda tenho muito a fazer pela inovação aberta no Brasil. Quanto mais aberto e colaborativo o ecossistema, mais fácil de se criar o ciclo virtuoso envolvendo conexões, negócios, investimentos, empregos e novas startups. Sempre busquei alinhar meus valores e objetivos pessoais com os da empresa para a qual atuo, pois desta forma posso tirar vantagem de ter esta “máquina” dando suporte à realização de grandes projetos. É incrível poder ver o impacto que temos gerado em fomento ao ecossistema empreendedor e esta é a minha maior satisfação e propósito pelo qual desejo continuar focando minha energia!

Qual foi o maior desafio de sua carreira até hoje? Como conseguiu lidar? 

Pelo meu perfil de estar sempre em “modo beta” almejando ir mais longe, seja em termos de fazer novos projetos ou almejar posições de maior responsabilidade, me deparei muitas vezes com mudanças que exigiam diferentes competências e habilidades. 

Desafios tive inúmeros, mas acho que o mais desafiador foi o início da carreira de liderança, pois gerir pessoas é sempre um grande desafio e um aprendizado contínuo. Na maioria das vezes não recebemos o apoio ou formação adequados em preparação para assumir tais posições. Vestir o chapéu de líder requer uma mudança de posicionamento e mindset deixando o operacional e passando para o estratégico com formação de equipes e planos de sucessão. A capacidade de se adaptar e fazer a leitura do ambiente com inteligência situacional foi algo que eu aprendi com o tempo, com muitos erros e acertos. 

É natural que se tenha altos e baixos na carreira e as lições importantes que tiro destas situações é não perder o foco e ter sempre um plano de desenvolvimento. Senão acabamos entrando no modo automático e fica difícil refletir e analisar se estamos realmente melhorando se não houver metas, referencial e alinhamento de expectativas com a gestão. Eu tive a sorte de ter tido mentores, que acreditaram no meu potencial e com os quais pude estabelecer diálogos de confiança. Também recorri a um coach profissional em determinado momento, que me ajudou muito com técnicas e metodologia para meu autoconhecimento e melhoria de habilidades específicas que eu gostaria de aprimorar.

Tem algum conselho para as mulheres que se inspiram na sua jornada até aqui e que gostariam de conquistar altos cargos executivos.

Já recebi feedbacks e depoimentos de algumas colegas que me marcaram profundamente, pois se inspiravam na minha jornada e ficavam felizes com minhas conquistas, pois sentiam-se representadas nelas. Foi então me dei conta de como somos observadas como exemplos e inspiração e quão importante são nossas atitudes perante as pessoas à nossa volta. 

Quando penso na minha carreira nos últimos 15 anos, a diferença no ambiente corporativo é brutal. Eu tive que trabalhar arduamente e acredito que muitas vezes precisei demonstrar um nível de preparo muito superior a um candidato do gênero masculino para almejar a mesma oportunidade. Era comum participar de reuniões com a alta gestão com muitas pessoas, sendo a única mulher na mesa. Felizmente a situação vem melhorando e as empresas tem ambientes muito mais igualitários atualmente, apesar do Brasil ainda ter muito à avançar.

Tive o apoio de pessoas muito importantes ao longo da minha trajetória, homens e mulheres incríveis com os quais aprendi muito e apoiaram meu desenvolvimento, então procuro fazer o mesmo por outras mulheres. Meu conselho para aquelas que almejam posições de liderança é que busquem por mentores mais experientes, que tenham passado por situações semelhantes, pois só o fato de discutir sobre as dificuldades do dia-a-dia com alguém numa posição neutra, ou seja, de preferência alguém de fora de sua organização, cria um ambiente seguro para que você possa refletir melhor antes de agir. Estas técnicas me ajudaram muito, pois a liderança é um caminho muitas vezes solitário e mostrar nossas vulnerabilidades não é sinônimo de fraqueza, mas de coragem para podermos superar nossos medos e desafios.

Como você vê o futuro dos espaços compartilhados? Teremos mais modelos híbridos? Acha que um dia o físico será totalmente substituído pelo digital?

Acredito que teremos modelos híbridos. Esta é a tendência que vem se confirmando pela maior parte das organizações pautada nas reflexões e pesquisas sobre os pontos positivos e negativos impostos pela pandemia. O fato de não se gastar mais tanto tempo com deslocamento desnecessário e a quebra de tabus sobre reuniões e eventos digitais trazem inúmeros benefícios, redução de custos e melhoria na qualidade de vida das pessoas. Não fazia mesmo sentido que todos se deslocassem no mesmo horário aos escritórios concentrados em determinadas regiões. Para vagas de backoffice ou desenvolvimento por exemplo ficávamos reféns de um mercado com mão de obra limitada, quando no modelo digital é possível acessar uma oferta muito maior pois não há limitações geográficas. Por outro lado, somos seres sociáveis e os laços físicos e presenciais na minha opinião vão continuar sendo muito importante para as relações, pois geram confiança e empatia. Portanto vejo que os espaços físicos irão evoluir para espaços menores e rotativos ou se transformando em pontos de encontro para conexões e reuniões. Na minha opinião a conversa no cafezinho e o famoso networking tão comum nos eventos, são insubstituíveis. Cabe a nós conseguir balancear o modelo híbrido de acordo com a área que cada pessoa exerce alinhado à cultura de cada organização.

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