Mulheres no Comando: Lilian Natal, Head do melhor hub de inovação do Brasil

Comentários (0) Beatriz Bevilaqua, Startups

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua


“Acho que mais mulheres estão se sentindo seguras e estimuladas a entrar no ecossistema e por isso a liderança nos hubs, que antes era muito masculina, está mais equilibrada”


Seguindo a série de reportagens com as mulheres mais poderosas do ecossistema de startups, desta vez falamos sobre diversidade com a Head do Distrito, Lilian Natal – a mulher, líder, mãe, professora, empreendedora que possui como característica predominante “a persistência” – aspecto mais que fundamental para quem deseja sobreviver no ambiente de inovação brasileiro.

Seu primeiro contato com a comunidade foi há quatro anos, quando conheceu o Silicon Drinkabout São Paulo – encontro semanal de empreendedores e profissionais do ecossistema de inovação paulistano. Em maio do mesmo ano, viajou pela primeira vez para o Vale do Silício para conhecer a região e fazer cursos de negócios.  Ao voltar entrou no Programa de Aceleração do Founder Institute São Paulo e, juntamente com dois sócios, fundou sua minha primeira startup. Ela conta que ainda estava empregada como Head de Comunicação de uma grande empresa e como sua filha ainda era muito pequena, sentia muito receio de empreender.

No entanto, a vontade de se dedicar ao seu próprio negócio crescia a cada dia e Lilian foi se envolvendo cada vez mais com a comunidade local – sentindo a diferença de colaboração neste ambiente em detrimento do ambiente corporativo vivenciado até então. Ao mesmo tempo ela percebeu que no ecosssistema haviam muitas pessoas dispostas a se ajudarem de verdade. Foi assim que se tornou uma das organizadoras do Silicon Drinkabout e passou a realizar outras iniciativas na ZeroOnze Startups. Com a confiança do apoio da comunidade, tomou coragem, pediu demissão e se jogou de cabeça na gestão do negócio. Ela explica que foi uma jornada maravilhosa, mas bastante desafiadora.

Em certo momento, já depois de duas rodadas de investimento, houve divergências entre os sócios sobre o futuro do negócio e então ela e mais um dos sócios acabaram saindo. Lilian chegou a se tornar sócia de uma outra iniciativa, a Videofy, mas já estava muito envolvida com ações da comunidade, ajudando outros empreendedores, mentorando e dando aulas. Foi quando o Distrito a chamou para mais um grande desafio: estar à frente da empresa e tomar decisões assertivas. Confira abaixo a conversa que tivemos sobre essa jornada incrível. 

“Senti na pele todas as agruras de ter um negócio no Brasil, com tantos impostos, pouquíssimos incentivos e nenhuma educação empreendedor. A gente erra bastante e tem vários tropeços. Um dia você está super feliz com uma conquista, no outro está preocupado se terá caixa para pagar todos os salários porque um cliente grande cancelou. Você vai aprendendo a duras penas”, se lembra.

Você é Head do Distrito, líder da Comunidade ZeroOnze, mentora, professora universitária e acaba de ganhar o prêmio como melhor Hub de Inovação do Ano pelo Startup Awards.  Como vê a evolução do mercado desde quando entrou para o ecossistema de inovação brasileiro?

De lá para cá, o ecossistema evoluiu muito. O mercado foi amadurecendo, outras iniciativas de apoio às startups foram surgindo e outras se adaptando melhor, todo o ecossistema foi sendo melhor lapidado, com menos imprudência, embora mais acesso a venture capital. As grandes corporações descobriram que precisam se conectar com as startups, assim como parte do governo, e as universidades começaram a se abrir mais para a inovação. 

No entanto, é tudo ainda muito recente no Brasil. Ainda há muito o que amadurecer. As iniciativas todas precisam se conectar mais – é um grande retrabalho cada um fazer sozinho – e as comunidades precisam ainda amadurecer, elas estão apenas começando. Governo e universidade melhoraram, mas ainda tem um longo caminho pela frente, e as corporações precisam ainda transformar seu mindset e seus processos burocráticos para fazer negócios com startups e se abrirem para a inovação. No Distrito acreditamos que todos esses players precisam estar conectados para o ecossistema se desenvolver melhor e mais rápido.

Você acha que existe muita diferença no olhar de liderança entre homens e mulheres na execução de Hubs de Inovação? Por quê mais mulheres estão assumindo esses cargos? 

Acredito que mulheres e homens têm a mesma capacidade e competência. Talvez existam sutis diferenças, como um ter mais empatia e ser mais focado no ser humano e outro ser um pouco mais orientado a números. Acredito que times diversos em todos os sentidos são sempre a melhor saída. 

Acho que mais mulheres estão se sentindo seguras e estimuladas a entrar no ecossistema e por isso a liderança nos hubs, que antes era muito masculina, está mais equilibrada. 

Falta mais diversidade no ecossistema (sabemos), quais iniciativas podem diminuir essa disparidade, sobretudo aqui no Brasil? O Distrito tem alguma pesquisa recente especificamente sobre esse assunto?

O ecossistema ainda é bastante masculino, tem um racismo estrutural e também outros preconceitos que refletem a própria sociedade brasileira e mundial. Quando fundei a startup, senti isso muito na pele como mulher empreendedora. Ao negociar com investidores, eles só olhavam para meus sócios homens durante a conversa e, mesmo quando eu respondia as perguntas, as tréplicas se voltavam para eles novamente. Ouvi coisas péssimas de investidores, como por exemplo, ao fazer um pitch sozinha, se eu tinha sócios homens. E um deles chegou a dizer que se as mulheres não tivessem buscado direitos iguais, a sociedade não estaria tão ruim como está. 

Aí você olha para os números e vê que menos de 20% das startups são fundadas por mulheres no Brasil. Quando olhamos para o empreendedorismo tradicional, esse número sobe para cerca de metade dos pequenos negócios fundados por mulheres. Ou seja, algo está bem errado. Mas ainda sim, sou uma mulher branca e que tive oportunidade de ter acesso a uma boa educação. Sou privilegiada nesse aspecto. 

Existem muitas pessoas ainda bastante excluídas. É um tema bastante complexo. Porém cada vez mais iniciativas estão emergindo desses grupos. Só para citar algumas: Rede Mulher Empreendedora, a B2Mamy (aceleradora para mães), a Black Rocks, a Casa Preta Hub, a Wishe (investimento em startups de mulheres), o Fundo WE da Microsoft o qual o Distrito é parceiro e muitas outras ações também de impacto social e para periferias. Precisamos investir no poder da diversidade, porque ela faz uma sociedade melhor. E o impacto nos negócios aparecem. Todos os estudos mostram que empresas com times diversos são muito melhores para os negócios. Então é uma falácia de quem quer simplesmente manter o status quo porque acredita que o favorece. Ao contrário, o melhor ambiente para negócios será aquele no qual nem precisaremos mais dessas iniciativas isoladamente. Essas pautas já deveriam estar no dia a dia. Porém ainda temos um longo caminho pela frente.

Qual foi o maior desafio de sua carreira até hoje? Como conseguiu lidar? Tem algum conselho para as mulheres que desejam empreender ou estar à frente de uma empresa e não sabem por onde começar?

Difícil eleger um. Foram vários! Durante a minha jornada como fundadora de startup, sofri bastante com a grande responsabilidade que é tocar um negócio e ter tantas pessoas “dependendo” de você. É uma grande montanha-russa. Um dia é maravilhoso, no outro você quer jogar tudo para o alto e chorar a noite toda. Você trabalha o tempo todo, acaba perdendo a vida social, os amigos se afastam, tem pouquíssimo tempo com a família, precisa lidar com as expectativas dos funcionários, precisa vender, precisa tomar as decisões certas – sobretudo depois que recebe o dinheiro dos investidores – e os desafios só vão aumentando à medida que o negócio vai se desenvolvendo. Lidar com tudo isso não é fácil e é bastante solitário. Tive períodos enormes de falta de ar e insônia. Sem dúvida levantar um negócio do zero foi o maior desafio profissional da minha vida. Mas também foi de um aprendizado gigantesco, único e sem precedentes. Coisa que nenhum MBA ensina.

Já no Distrito o maior desafio veio com a pandemia, quando tivemos de fazer o lockdown dos hubs. Ao mesmo tempo, esse período foi o de maior crescimento. Nós nos voltamos para a nossa comunidade de startups, mapeamos tudo, absolutamente tudo que precisavam e com isso lançamos o Distrito for Startups, que é um programa digital de desenvolvimento para startups em um formato totalmente único no Brasil. E crescemos quase 200%, partindo de 120 startups para mais de 300 atualmente e com atuação já em 12 estados. A lição que fica é: se você tem uma vontade genuína de ajudar, volte-se para sua comunidade ou seus clientes, entenda profundamente o que precisam e lute para auxiliá-los de forma real. Importe-se de verdade e você terá sucesso.

“A lição que fica é: se você tem uma vontade genuína de ajudar, volte-se para sua comunidade ou seus clientes, entenda profundamente o que precisam e lute para auxiliá-los de forma real. Importe-se de verdade e você terá sucesso”

Como você vê o futuro dos espaços compartilhados? Teremos mais modelos híbridos? Acha que um dia o físico será totalmente substituído pelo digital? O que ficou de grande aprendizado pós Covid-19?

Acredito que a tendência seja o modelo híbrido. Boa parte das pessoas querem poder escolher quando ficarão em home-office, quando irão para o escritório. Mas elas não querem só um ou somente outro. Além disso, alguns perfis de times se adaptam melhor em ambientes mais isolados, como equipes de desenvolvimento de software. Já times de marketing, comercial, RH, tem uma necessidade maior de contato com outras pessoas. E ainda há aquelas pessoas que não tem as condições ideias para trabalhar de casa. Então o futuro é flexível.

Existe também uma tendência dos espaços físicos se transformarem em não apenas espaços de trabalho, mas lugares de encontro, de entretenimento, de pesquisa, de show-room, de co-criação. Eles passarão, cada vez mais, a gerar muito mais valor do que simplesmente ter uma mesa para trabalhar. Nos hubs Distrito estamos investindo nisso e teremos cada vez mais laboratórios, espaço maker e vários outros, ressignificando os espaços. Estamos sempre de olho nas tendências e procuramos nos antecipar. Assim esperamos cada vez mais oferecer o melhor ambiente – físico ou digital – para que as startups possam crescer e se desenvolver. E de outro lado conectamos as grandes empresas, fazendo que com possam inovar de verdade. É nessa simbiose que acreditamos para contribuir de verdade com o ecossistema.

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