Mulheres no Comando: Jhenyffer Coutinho, da “Se Candidate, Mulher!”

Comentários (0) Beatriz Bevilaqua, Desenvolvimento Pessoal

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua


Ninguém aprende a fazer um currículo, ter um bom LinkedIn durante a escola ou a faculdade ou até mesmo como se portar em uma entrevista. Eu possuía esse conhecimento, de modo que o “Se Candidate, Mulher!” surgiu dessa vontade de ajudar as mulheres a se colocarem no papel de protagonistas. E assim, consequentemente terem mais coragem para se candidatarem nas vagas e se prepararem melhor.”


A crise da Covid-19 aprofundou ainda mais os nossos problemas estruturais, sociais e econômicos em todo país. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) só no início da pandemia 7 milhões de mulheres perderam seus empregos. Além da demissão, elas têm mais dificuldades para procurarem uma vaga e se manterem no mercado. 

Segundo o relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, divulgado pela ONU Mulheres, revelou que dentre a população feminina mundial, as trabalhadoras do setor de saúde, doméstico e informal são as mais afetadas. Além disso, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 31,8 milhões de famílias do país (45,3% do total) são chefiadas por mulheres que, em tempos de isolamento social, ainda têm que cuidar dos filhos. 

A entrevista de hoje é com a fundadora do “Se Candidate, Mulher!”, o projeto de impacto social é formado por uma rede de mulheres que ajudam umas às outras a recuperarem seus espaços no mercado por meio de mentorias, conteúdos, divulgação de vagas, networking, entre outras coisas. Jhenyffer Coutinho, a idealizadora, fala sobre a iniciativa que em pouco tempo já conseguiu empregar mulheres de todo país. Confira a nossa conversa!

Como surgiu a ideia do “Se Candidate, mulher”?

Em 2017, participei de um workshop de autoconfiança feminina e me deparei com uma pesquisa da HP realizada há alguns anos. Um dos dados dessa pesquisa era que a maioria das mulheres só se candidatava a uma vaga de emprego quando possuía 100% dos pré-requisitos, enquanto os homens conseguiam o mesmo com apenas 60% dos pré-requisitos. No momento, eu super me identifiquei, porque eu já deixei de me candidatar em várias vagas porque faltava uma ou outra coisa. Paralelamente a isso, eu era líder numa organização, na qual, juntamente com o meu time, era responsável por todos os processos seletivos. Eu tinha muita dificuldade de encontrar as mulheres em meio às inscrições, mesmo quando a vaga era direcionada a mulheres; ainda assim, os homens iam lá e se candidatavam.

Isso ficou na minha cabeça por um tempo. Em 2020, resolvi tirar um ano mais tranquilo e vim passar uma temporada nos EUA. O fato de ter mais tempo, atrelado ao tanto de mulheres atingidas pela pandemia (2 milhões a mais que os homens) e pela crise que se instaurou no Brasil, com várias delas sendo demitidas, me fez pensar que eu podia fazer algo.

Ninguém aprende a fazer um currículo, ter um bom LinkedIn durante a escola ou a faculdade ou até mesmo como se portar em uma entrevista. Eu possuía esse conhecimento, de modo que o “Se Candidate, Mulher!” surgiu dessa vontade de ajudar as mulheres a se colocarem no papel de protagonistas, que elas são. E assim, consequentemente terem mais coragem para se candidatarem nas vagas e se prepararem melhor. 

Quais são os campos de atuação do projeto?

A iniciativa tem 3 formas de atuação:

  • Produção de conteúdo: Acreditamos que a informação é a chave para a mudança da realidade da empregabilidade feminina no Brasil. Damos insumo para que elas possam se sentir confiantes o suficiente para se candidatarem às vagas. Produzimos conteúdo gratuito nas nossas redes sociais ensinando sobre currículo, LinkedIn e demais etapas do processo seletivo. Assim como conteúdos de inspiração e assuntos sobre os quais precisamos falar.
  • Rede de apoio: Formamos uma comunidade de mulheres engajadas em ajudar umas às outras na procura de emprego. Estamos presentes no Whatsapp, LinkedIn e Telegram e diariamente ajudamos umas às outras.
  • Mentoria: Selecionamos mensalmente mulheres para serem mentoradas gratuitamente em 5 pilares: carreira, autoconhecimento, currículo, LinkedIn e oratória. Agora estamos com uma vertical de mentoria para mulheres da tecnologia também.

Em que momento vocês estão agora? E quais os planos para 2021?

Durante esse tempo de existência, conseguimos de fato entender que as mulheres precisam mesmo ser encorajadas e que elas só precisam desse empurrão, paralelo a isso nos deparamos com uma gama de empresas que querem contratar mulheres. Validamos o problema e agora estamos validando as soluções. Temos vários produtos sendo desenhadas e estamos colocando no mercado com muita cautela, mas ao mesmo tempo muita confiança.

Para 2021 estou de volta para o Brasil, com certeza me dedicarei full time para a operação e conseguirmos atender toda a demanda que temos hoje. Temos como objetivo empregar 100 mulheres ainda em 2020 e ampliaremos esse número para o próximo. Muitas coisas estão saindo do forno agora, acabamos de realizar o nosso primeiro aulão que foi um sucesso, estamos construindo uma plataforma e lançaremos novidades em breve.

Qual foi o maior desafio de sua carreira até hoje? Como conseguiu lidar?

Convencer uma organização sobre a importância da área de gestão de pessoas foi um dos maiores. As pessoas são o principal ativo das organizações, mas infelizmente nem sempre são prioridade para as mesmas. Precisei trabalhar 150%, entregar mais, me desdobrar pra tirar tudo do papel. Foi muito difícil, mas sempre fui muito resiliente e acho que consegui deixar um legado bom nesse sentido.

Já passou por alguma situação de sexismo no ecossistema? Poderia compartilhar conosco?

Infelizmente acontece muito. Como eu disse, é um ambiente muito masculino. Imagina uma mulher nova, num cargo de liderança tendo que tomar decisões nesse ambiente? Não só dentro das organizações, mas fora delas também. O ambiente já é ruim pra gente e ser reativa pode atrapalhar muito.  O que eu sempre levo comigo foi uma coisa que aprendi praticando esportes: quando você pratica boxe se você leva um soco, você não deve ser imediatista e rebater com um soco, você deve dar um passo para trás, entender o movimento que você vai fazer e dar o seu golpe, se você for reativa você vai perder todas as lutas. 

Levando isso para o ambiente em si, normalmente quando a gente ouve um absurdo a gente quer responder no mesmo tom e é assim que a gente perde a batalha, a gente precisa parar entender o que aconteceu e responder estrategicamente. Foi assim que eu consegui lidar com esse ambiente.

O que eu sempre levo comigo foi uma coisa que aprendi praticando esportes: quando você pratica boxe se você leva um soco, você não deve ser imediatista e rebater com um soco, você deve dar um passo para trás, entender o movimento que você vai fazer e dar o seu golpe, se você for reativa você vai perder todas as lutas.”

Tem algum conselho para as mulheres que estão ainda na fase da ideação do negócio?

Não se apeguem na solução do problema, se apeguem ao problema. Parece clichê, mas é a verdade. Muitas vezes a gente acha que tem uma solução que quer revolucionar o mundo e nem sempre é ela. Existem várias formas de resolver o mesmo problema e estar aberta a testar todas elas pode ajudar muito nesse momento. Além disso, vale lembrar que nós podemos muito, somos guerreiras por natureza e não tem nada que pare uma mulher determinada.

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