Erick de Albuquerque: “Se existir, o segredo é persistir com inteligência e estratégia.”

Comentários (2) Entrevista

Por Mariana Azevedo [BR] com contribuição de Sandra Vasconcelos [UK].

Entrevistamos Erick de Albuquerque, e o especialista em gestão de negócios e estratégias empresariais fez diversas recomendações, e previsões sobre a economia, para empreendedores de pequenos negócios. Ele também explicou como acontecem as movimentações de mercado em tempos como os atuais e o que pode ser feito para evitar surpresas indesejadas nos empreendimentos.

Mundo Bita, Salvus, Prol Educa e Mobiclub são algumas entre as centenas de startups bem sucedidas que tiveram orientações de Erick de Albuquerque para construção de suas estratégias empresariais. Ele também elaborou metodologias utilizadas em algumas das maiores e melhores aceleradoras de startups da América Latina, como Startup Farm, SEED-MG e a Jump, do Porto Digital.

De raríssimas aparições em eventos e baixa exposição midiática, Erick é muito conhecido em diversas regiões do Brasil e considerado por empreendedores como um dos melhores especialistas em estratégias empresariais para negócios inovadores do país. Carismático e experiente, ao longo de seus 20 anos de atuação como empresário e consultor ele conseguiu nortear estratégias para importantes empresas nacionais e internacionais como Stx, Fedex, Ogilvy, Locaweb, Correios, Tegma, entre outras, e se declara apaixonado por empreendedores que gostam de resolver problemas reais em diversos segmentos.

Nós fomos recebidos por Erick em sua casa no litoral Pernambucano e coletamos inúmeras informações durante uma agradável conversa, que aconteceu em meio a muitos cafés e bolos, como é costume na região.

Confira agora as opiniões, previsões e recomendações do especialista para que seu negócio possa aproveitar melhor o ano que acabou de iniciar.


Gene PME: Erick, diante de tudo que está acontecendo no mundo, tanto do ponto de vista das mudanças provocadas pela pandemia quanto do ponto de vista econômico em que se encontra o Brasil, como o empreendedor pode encontrar um norte adequado para o negócio, principalmente se ele for um pequeno negócio.

Resposta: Empreendedores devem saber projetar números, analisar o mercado, o comportamento do consumidor que ele atende e utilizar isso em favor do negócio. Muitas pessoas não conseguem tempo para dedicar em análises importantes e acham que não faz tanta diferença, mas faz. Vamos imaginar que uma padaria que recebe muitos clientes diariamente, teoricamente, não precisaria ter algumas preocupações, mas, principalmente após a pandemia, as pessoas mudaram muitos hábitos e talvez, por exemplo, não atender ao delivery no bairro seja uma forma de deixar dinheiro na mesa. A mesma coisa pode ser dita para farmácias, lojas de presentes, casa de frios ou cafés. Estamos em um tempo em que o que mais importa é levar o produto vendido até o cliente, na forma que ele deseja. Isso é uma forma de encontrar o norte. Então imagine o poder que um negócio pode ter se o empreendedor for capaz de unir estratégias, análise de mercado e ações focadas em entender e atender aos anseios de seus clientes. Melhor respondendo, o norte é observar essas três variáveis e criar um plano de trabalho, medir os resultados, ajustar os passos que não deram tão certo e seguir em frente. Não existe fórmula mágica ou GPS milagroso, acho que, se existe, o real segredo é persistir com inteligência, razão e um belo plano de trabalho em execução por um time extraordinário que deve ser conquistado e desenvolvido ao longo da jornada, dia após dia.

Gene PME: Se você fosse começar hoje, diante de um planeta globalizado onde quase tudo já foi inventado, por onde iniciaria um negócio inovador?

Resposta: Não acho que tudo já foi inventado, acredito que ainda temos muitas oportunidades, principalmente quando passamos a solucionar problemas utilizando soluções simples e fáceis de acessar pela grande massa. Nós temos muita chateação no dia a dia que precisam ser resolvidas com tecnologia, novos processos e formas de fazer as coisas. Por outro lado, não podemos deixar de observar a movimentação mercadológica, ela nos direciona muito rapidamente aos novos formatos de negócios que estão por vir. Eu gosto de dizer que novos negócios podem surgir de qualquer lado, a partir de qualquer coisa, em qualquer tempo ou lugar, isso não é maravilhoso? E o melhor, os negócios tradicionais podem (e devem) se reinventar sem medo de perder espaço, mesmo sabendo que nada vai resistir a nova onda digital e irreversível de consumo, seja para educação ou para saúde.

E por falar nisso, em uma análise mais profunda, veremos que setores como Alimentação e Eventos, e grandes áreas como Saúde e Educação, têm oportunidades elevadas. Observe que a própria forma de educar precisa de um upgrade. Escolas, universidades e centros educacionais deveriam parar de insistir na contenção dessa virada de forma e aderir ao “modus operandi” enquanto é tempo, até para não terem que passar pelo vexame de reclamar futuras disrupções, hoje inimagináveis, que surgirão por demandas colocadas pela grande massa de pessoas. É ridículo ver instituições renomadas defendendo modelos de ensino que não formam seres humanos melhores e que seguem uma receita fácil buscando a forma mais barata de implementação. Atualmente, novos focos de inovação disruptiva em modelos tradicionais são lançados a todo instante ao redor do mundo e, em breve, irão engolir o modelo educacional já falido em utilização hoje em dia.

Então acho que a receita está em estudar e encontrar problemas existentes em diversos mercados para que sejam resolvidos.

Tudo já está em transformação, permita-se estudar e aderir ao novo para não cair no esquecimento.  

Erick de Albuquerque

Gene PME: Você acredita que a assistência dada aos jovens empreendedores no início de suas jornadas é suficientemente boa e pode impulsionar nossos talentos de verdade?

Resposta: Não! Eu acho que, principalmente aqui no Brasil, os programas de assistência têm um papel importante, mas não dão conta. Todos que conheço se esforçam de maneira heroica para apresentar a melhor assistência possível, mas o fomento não é algo fácil e custa caro. As iniciativas que passam por programas de assistência nem sempre dão certo e, quando dão, em muitos casos, não há vínculo contratual para que o agente de fomento possa ter retorno sobre o que investiu. Isso para agentes de fomento como incubadoras, aceleradoras e centros de inovação, que, quando são privados, buscam compor com grandes marcas, governos e instituições do terceiro setor. Mas gostaria de lembrar que a Educação Empreendedora é praticamente inexistente no Brasil, aliás, a Educação em si precisa de muitos ajustes já que os jovens de hoje se transformaram em uma grande ponte para a prosperidade em um futuro próximo e são tratados muitas vezes com uma média abaixo da adequada para o potencial que guardam. Acho que tanto isso da educação, quanto o fomento aos negócios inovadores (startups e etc) precisam de um braço governamental muito mais amplo, forte e presente. Estamos caminhando, mas ainda falta muito para que possamos aproveitar todo potencial de nossos jovens, e isso é uma falha que precisa ser corrigida rapidamente. Precisamos eleger gestores públicos mais arrojados e corajosos, e depois cobrar velocidade deles, claro.

Gene PME: E o acesso ao capital, aos centros de inovação e fomento, você acha que estamos caminhando adequadamente nesse sentido?

Resposta: Temos algumas coisas para comemorar. O Brasil melhorou muito nos últimos anos, o capital de risco cresceu absurdamente e os centros de fomento estão espalhados por toda parte. No entanto, essas coisas ainda não chegaram aos jovens das classes sociais mais baixas. Talvez eu esteja errado se falar que eles estão quase que completamente excluídos dessas trilhas, mas algo me diz que um jovem que precisa trabalhar das 8h até às 18h não tem as melhores condições de jogo para empreender e voar. Embora muitos se destaquem mesmo assim, precisamos olhar para que as ideias de toda a juventude possam ser testadas e cheguem aos centros urbanos de maneira mais igualitária. 

Falo isso porque se formos em Paraisópolis, em São Paulo, a quinta maior favela do Brasil, iremos conhecer inúmeras iniciativas amplamente globalizáveis e que precisam de mais atenção para tomarem o mundo. Estamos desperdiçando muitos talentos. Infelizmente, eles ainda acessam pouco os centros e os centros também os acessam pouco. Além disso, o capital passa distante dessas pessoas, ou seja, temos aqui um grande problemas para resolver. Você já notou que os empreendedores digitais mais famosos do Brasil nem sempre estão envolvidos com ações que provoquem esse debate e ampliem as oportunidades? Não é curioso como o capital ainda permeia uma quantidade pequena e pouco diversa de pessoas? Faço a provocação para que possamos refletir também sobre isso, acho que não estamos caminhando adequadamente nesse sentido.

Gene PME: Na sua visão, o que um empreendedor que consegue acesso ao fomento da inovação precisa buscar em uma instituição como uma incubadora, uma aceleradora ou agente de fomento de modo geral?

Resposta: O empreendedor deve buscar tudo aquilo que falta em seu negócio. Muitas vezes os agentes de fomento entregam uma boa infraestrutura e outras vezes um bom colegiado de parceiros. Também é comum encontrar times de mentores com vasta experiência no mercado, acesso à redes de contatos e capital que podem alavancar negócios com aproximação entre o negócio assistido e potenciais clientes, entre outras coisas. 

Erick de Albuquerque orienta Marina Pacheco em sua marca autoral de moda.

Na minha opinião uma empresa pode até precisar de tudo isso ao mesmo tempo, mas deve-se focar em dois ou três pontos cruciais ao negócio e escolher o agente de fomento que os oferece. Aqui cabem alguns cuidados importantes: o primeiro deles é checar os números daquele agente de fomento, como por exemplo, pode-se analisar quantas startups passaram pelo agente e delas quantas estão em funcionamento e qual foi a evolução dentro do programa ofertado pelo agente de fomento analisado. 

Acho que eu procuraria startups que passaram pelos programas e os convidaria para um café, fora do alcance dos agentes que os assistiram, isso vai tornar o papo muito mais aberto e falhas dos programas serão expostas de maneira mais honesta sem interferências, o que pode ser muito bom, por que as falhas nem sempre invalidam um agente de fomento, ao contrário, elas trazem luz para problemas que os agentes conseguiram superar diante de tanta dificuldade que eles enfrentam para fazer funcionar um programa de acompanhamento aos inovadores. 

Outra coisa que posso dizer sem medo de errar é que matérias na mídia podem não resultar em entrada de capital, que pitchs para investidores podem não gerar captação de recursos e o tempo que se investe nisso precisa ser bem monitorado. Não vale a pena queimar etapas, os empreendedores devem procurar instituições que possam atender suas demandas ou que estejam prontas para aprender sobre elas e se adequar. As instituições devem focar nas pessoas que assistem e esquecer a ilusão de ter um espaço lindo que não comporta os negócios, fomentar é dar suporte e isso não pode ser feito pela metade para agradar apenas uma boa fotografia entende? O trabalho precisa ser feito de maneira completa, mesmo que humildemente.

Gene PME: Você acha que 2022 é um ano de recuperação total, iremos voltar aos patamares de antes da pandemia ou apenas iniciaremos a subida?

Resposta: Nem um nem outro. O Brasil vai encarar um ano eleitoral. 

Se observarmos a história iremos notar que esses anos são bem complexos no país, certamente isso vai impactar os negócios. Não estaremos mais próximos ao epicentro da crise, a cada dia estamos nos distanciando mais dela, embora isso poderia ter acontecido um pouco mais rápido. 

Vale destacar que a pandemia persiste e existem riscos de novas variantes atrapalharem ainda mais nossas vidas. Além do cenário político e da saúde, precisamos olhar para a parte econômica, infelizmente nós sofremos uma queda gigantesca. Isso quer dizer que, embora eu acredite no coelhinho da páscoa, custo a acreditar que teremos uma recuperação econômica em poucos meses. De qualquer forma, acredito no Brasil, somos muito ricos e superação é uma marca que pode ser atrelada ao nosso povo.

Ainda que eu aposte em um cenário de subida, falar em recuperação total é precipitado, temos que trabalhar muito, produzir riqueza e aproveitar oportunidades que possam surgir em segmentos que podem voltar a aquecer em 2022, tais como alimentação e eventos, por exemplo.

Erick de Albuquerque orienta empreendedores que criaram uma solução educacional de fácil acesso para para crianças com espectro autista, a Vínculos.

Gene PME: Falando com um dos maiores especialistas em estratégias empresariais para negócios inovadores do Brasil, não poderia deixar de pedir instruções para quem deseja planejar uma estratégia, mas nem sempre pode contratar uma consultoria ou acompanhamento especializado. Por onde o empreendedor pode começar?

Resposta: Criei muitas estratégias ao longo da vida, mas se tem uma coisa que eu defendo é que possamos fazer sempre da forma mais confortável para nossa cultura empresarial, do nosso jeito. Tenho utilizado meu método e, embora ele seja bastante completo, tem um exercício que eu considero o início de tudo, ele trabalha as percepções dos empreendedores e os projeta até o futuro em busca de respostas. Vou recomendar um exercício de visualização de futuro, como início para empresas de qualquer tamanho, inclusive empreendedores solitários devem testar. 

Tenha papéis e canetas de cores diferentes  em mãos. Agora, imagine sua empresa daqui a três anos, descreva tudo que ela tem com sucesso obtido, escreva quantos funcionários possui, qual sua linha de produtos mais bem colocados no mercado, como é a cultura do negócio e todos os demais fatores de sucesso do empreendimento. Na sequência, retorne para a data atual e comece a escrever todos os itens que faltam para que aquele futuro imaginado seja possível. Divida isso por áreas da empresa e terá um belo diagnóstico com tudo que você precisa para alcançar o sucesso. 

Em seguida, escreva um plano de trabalho com objetivos claros, ações e responsáveis, metas e prazos. Acompanhe a evolução das entregas semanalmente e verá que aquele futuro imaginado está justamente na conclusão de toda essa lista de afazeres.

Uma coisa que não posso deixar passar é o fato de muitas empresas falharem por falta de alinhamento societário e pela completa ausência de estratégia. Esses pontos parecem difíceis (e são mesmo) mas precisam de energia, prioritariamente, qualquer negócio sem isso é um negócio sem alma e acaba perdendo o valor com o tempo.

Erick de Albuquerque
Paper Canvas - Material introdutório criado por Erick de Albuquerque

Para os empreendedores que chegam até aqui, Erick deixou um kit com dois documentos denominado de Paper Canvas, ele vai ajudar todos os empreendedores que estão na fase inicial de seus projetos. O kit possui um PDF para estudar e um documento completamente editável do power point para que você faça seu canvas ali mesmo, no digital. Para acessar e fazer o download basta clicar aqui.

2 Responses to Erick de Albuquerque: “Se existir, o segredo é persistir com inteligência e estratégia.”

  1. Monike disse:

    Adorei a entrevista com Erick. Conteúdo muito rico. Obrigada pelo kit viu, já estou salvando os arquivos.

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