Era uma vez… o mundo das bonecas negras

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 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua

O racismo é uma realidade ainda mais dolorosa em tempos de crise. Você sabia que as mulheres empreendedoras negras são o segmento mais afetado pela pandemia do novo coronavírus? É o que apontam as pesquisas mais recentes do Sebrae: empresas lideradas por mulheres negras têm maior dificuldade de funcionar de modo virtual e conseguir empréstimos bancários.

O levantamento, feito em parceria com a Fundação Getulio Vargas, revela ainda que enquanto 36% das empreendedoras negras estão com a atividade interrompida temporariamente, essa proporção cai para 29% entre as empresárias brancas e 24% entre os homens brancos (entre os homens negros, a proporção é de 30%).

Na coluna de hoje falamos com a Jaciana Melquiades, uma historiadora do Rio, que hoje é empreendedora e tem talento de sobra. Quando estava grávida de Matias, hoje com 9 anos, teve muita dificuldade em encontrar brinquedos, produtos e roupas que se parecessem com ele, ou que tivessem personagens negros. O impulso para a mudança foi imaginar quais seriam as referências dele quando nascesse.

Por desejar que seu filho tivesse uma experiência diferente da maioria das crianças negras, ela mesma desenvolveu então produtos com recorte racial. O negócio surgiu de forma orgânica: enquanto Jaciana fazia oficinas educativas com os brinquedos, professores se interessaram pelos itens que criava e assim ela viu a demanda aumentar. Foi nesse momento, em 2013, que começou a fazer por encomenda e logo em seguida apostou a experiência em negócio de impacto social e fundou a “Era uma vez o mundo“. Acompanhe a entrevista que fizemos com a empreendedora.

Você é historiadora e hoje empreendedora de bonecos negros. Conta pra gente o que mais sentiu falta quando estava fazendo as compras de decoração e brinquedos para o seu filho. 

O mercado de brinquedos não tem qualquer representatividade. É muito difícil encontrar personagens negros, mesmo quando não estamos falando de brinquedos, estampas de roupa ou quaisquer itens de decoração, dificilmente encontramos referências em pessoas negras.

Como é empreender nesse nicho específico? Quais os desafios?

Pensando no impacto social, temos um número que nos dá uma orientação: 7% das bonecas disponíveis no mercado são negras, e o fato de disponibilizarmos bonecas negras já facilita e democratiza o acesso. Mas nossa trajetória está diretamente ligada à educação, com oficinas para professores para uma educação antirracista e oficinas afro referenciadas para estudantes. Grande parte dessas oficinas são destinadas à escolas públicas.

A sua empresa hoje está focada na produção de brinquedos afro, atividades educativas e palestras. Qual é o pilar mais difícil?

Definitivamente é a produção de brinquedos, porque lida com gestão de pessoas. Nós temos como princípio oportunizar a empregabilidade de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Hoje contamos com colaboradoras (es) cis e trans, mulheres moradoras de periferias, algumas com baixo grau de escolaridade e que estão conseguindo uma renda fixa mensal. 

Além do treinamento técnico, é importante também para nós que a pessoa entenda o impacto que ela causa com seu trabalho e para isso a gente faz inclusive uma espécie de formação cidadã, falando sobre direitos humanos, diversidade e outros temas que sejam relevantes nessa formação.

Como você vê o racismo estrutural hoje no Brasil e sobretudo referente à mulher negra que deseja hoje empreender?

O racismo é uma realidade. Empreendedores negros têm menos acesso à formação voltada para seus negócios, têm menos acesso à crédito, e sendo mulher negra, ainda tem o peso do machismo desqualificando meu trabalho diariamente. É cansativo lidar com o racismo diariamente.

Qual foi a estratégia do negócio durante o começo da pandemia? Vocês sentiram algum impacto? 

No início da pandemia não teve estratégia, teve muito medo e bastante incerteza. Por aqui, o que fiz foi chamar a atenção do público para a necessidade de não deixa um negócio que impacta a educação morrer. Também usamos fortemente as redes sociais para movimentar as pessoas a encontrarem nosso site, única forma de compra nesse momento.

O que tem visto e aprendido nos últimos anos? Alguma dica para quem quer empreender nesse caminho?

Inicialmente o maior desafio é fazer as pessoas entenderem que não somos ONG. No Brasil a legislação em relação às empresas de impacto social não existe, então o fato de sermos de impacto fica no propósito, mas não chegamos a ter uma diferenciação estrutural na prática. Em outros países até os impostos são diferenciados para esse tipo de negócio. 

Nos últimos anos tenho percebido que o propósito tem movido os negócios, e o impacto social é extremamente relevante. Seguir por esse caminho vai requerer conhecimento vasto sobre a área e um entendimento sobre o impacto efetivo o seu negócio. Uma boa forma de começar, seria acessar os 17 Objetivos para Transformar o Mundo (ODS) da ONU. São os objetivos que orientam os negócios no caminho da sustentabilidade e impacto sócio ambiental para transformar o mundo em um lugar melhor até 2030.

Como podemos ter uma sociedade realmente livre de racismo?

Com ações práticas! Eu poderia falar amplamente sobre os caminhos, mas nenhuma campanha ou discurso é tão eficiente como ações práticas como antirracismo, por exemplo. É necessário ter um compromisso com a criação efetiva de oportunidades para pessoas negras. 

Para saber mais, acesse: eraumavezomundo.com.br

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