Elas no Comando: Rafaela Bassetti e o fundo de investimento para iniciativas femininas

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 ELAS NO COMANDO  | Por Beatriz Bevilaqua


De acordo com o Sebrae, há 24 milhões de empreendedoras mulheres no Brasil, quantidade semelhante ao número de homens. No entanto, quando olhamos para startups, no Brasil somente 15% delas são lideradas por mulheres, segundo mapeamento da ABStartups. A dificuldade para buscar investimentos é umas das principais barreiras apontadas para o menor número de líderes femininas no universo de startups, segundo revela a nossa entrevistada dessa semana, Rafaela Bassetti.

Rafaela é CEO e fundadora da Wishe – um fundo de investimento focado em startups inovadoras lideradas por mulheres que tem como objetivo eliminar o gap de gênero no ecossistema de startups. A iniciativa leva capital para empresas fundadas por mulheres com alto potencial de crescimento, oferecendo educação e conexão para quem investe, gerando valor econômico e impacto social.

Natural de Belo Horizonte, Rafaela é advogada especialista em direito societário e tributário e em fusões e aquisições. Ela fundou a Wishe a partir de uma dificuldade própria de empreender e ter acesso a investimentos como mulher e mãe. Também faz parte da sociedade da B2Mamy, primeira empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema de inovação e tecnologia. Juntas, as duas empresas comandam a Casa B2Mamy Wishe, um espaço family-friendly dedicado à capacitação e conexão de empreendedoras. 

A empreendedora ainda atua como investidora-anjo, mentora de startups e em iniciativas de suporte ao empreendedorismo, como a Womby. Confira a entrevista!

Como surgiu a ideia de criar um fundo de investimentos voltado para o público feminino? 

A desigualdade de gênero no mercado de trabalho sempre foi algo que me chamou atenção em minha jornada profissional e eu acredito que veremos uma mudança significativa nesse cenário, especialmente quando as grandes empresas, líderes de seus segmentos e que inspiram os novos players, forem fundadas e lideradas por mulheres. Neste momento não precisaremos mais doutrinar as companhias e tentar mudar as regras do jogo, nós criaremos uma nova arena completamente diferente da que temos hoje.

E se olharmos hoje para o que existe de fomento na criação destas grandes empresas lideradas por mulheres, vemos muitas iniciativas relevantes olhando para educação, capacitação, conexão e comunidade, mas pouca gente olhando ainda para o dinheiro. E ele muda tudo. Quem tem o cheque nas mãos tem um grande poder de mudança e hoje infelizmente ele está concentrado na mão de poucos, e todos muito semelhantes.

Esse foi o cenário de partida para a criação da Wishe, além também da minha própria experiência como mulher, mãe, advogada especialista em direito societário e tributário e como empreendedora. 

Quais foram os principais desafios no início?

No início desta jornada acreditávamos que eles estariam muito relacionados a um esforço para popular os dois lados da nossa equação: de um lado, empreendedoras e negócios maduros e aptos a captar investimento e, do outro lado, pessoas com capital interessadas em investir em startups com lentes de gênero. E nesse sentido tivemos uma grata surpresa, tanto sob o ponto de vista da robustez dos negócios que estamos encontrando quanto, por outro lado, no número cada vez maior de pessoas interessadas em diversificar a sua carteira de investimentos com propósito, se conectando a uma comunidade e aliando retorno financeiro a transformação social. E aí descobrimos que nosso maior desafio é ter braços e horas de trabalho para entregar tudo o que gostaríamos diante deste terreno tão fértil.

Você vê mais dificuldades das startups brasileiras fundadas por mulheres conseguirem aporte?  É um cenário ainda mais desigual em relação à outras regiões do mundo?

De acordo com o Sebrae, há 24 milhões de empreendedoras mulheres no Brasil, quantidade semelhante ao número de homens. No entanto, quando olhamos para startups, no Brasil somente 15% delas são lideradas por mulheres, segundo mapeamento da ABStartups. Há uma série de razões apontadas para justificar essa discrepância, desde aqueles mais estruturais como estereótipos relativos ao papel da mulher, como questões mais intrínsecas ao universo das startups, como o baixo número de mulheres em carreiras STEM. Mas, sem dúvida alguma, a dificuldade para buscar investimentos é umas das principais barreiras apontadas para o menor número de líderes femininas no universo de startups. 

E apesar de ainda termos poucos dados mais profundos sobre investimentos em startups lideradas por mulheres no Brasil, algo para o qual estamos olhando com prioridade para o próximo ano, sabemos que 2020 foi um ano ainda mais difícil para as mulheres nesse sentido.

De acordo com os dados globais divulgados pelo PitchBook até setembro de 2020, tivemos neste ano um retrocesso na diversidade, com o volume de investimento em startups lideradas por mulheres diminuindo, tanto em valor quanto em número de rodadas, aos níveis de 2017, ano do conhecido estudo da BCG sobre o tema que trouxe o dado de somente 2% do investimento de venture capital no mundo destinado para mulheres, apesar delas performarem financeiramente melhor. Vale ressaltar aqui em, no mesmo período em 2020, o valor médio dos aportes em startups fundadas por homens subiu, mas caiu entre as fundadoras mulheres. 

Vocês participaram de um aporte recente no valor de R$1 milhão para a Amyi. Como a Wishe faz a seleção das empresas que serão investidas? Como funciona? E qualquer empresa pode se cadastrar?

Estamos muito felizes e orgulhosas em ter a Amyi como parte do nosso portfólio, uma empresa disruptiva no grande e tradicional mercado de perfumaria no Brasil, liderada por duas empreendedoras brilhantes, com profundo conhecimento de mercado e enorme capacidade de execução. Vemos na Amyi um investimento muito atraente e que servirá de inspiração para outros cases que surgirão nos próximos meses.

Assim como a Amyi, nós buscamos negócios inovadores fundados por mulheres e buscamos nessas empresas diversos elementos que nos dêem a convicção de que aquele negócio crescerá de forma exponencial e relevante em seu mercado. Gostamos de usar para isso o framework dos 5 “T’s”, do nosso Conselheiro Daniel Magalhães, CEO da ISEC e investidor anjo, e olhamos para o tamanho de mercado, a tese (ou modelo de negócio, a forma como a startup vai atacar esse mercado), o time, a tecnologia e o timing. 

E o nosso Conselho tem papel relevante no nosso processo de seleção e validação das startups. Montamos um time extremamente diverso e competente que nos amplia o olhar em nossas análises e decisões. Além do Daniel, temos a Itali Collini, diretora da 500 Startups no Brasil, como líder do Comitê, e os seguintes membros: Amanda Graciano, Head de portfólio iDEXO; Andre Oliveira, Partner na Positive Ventures; Fabio Nunes, CTO da Navita; Felipe Affonso, Diretor do Softbank Group; Gabriela Chagas, Partner na Vox Capital; Juliana Lopes – CFO da B2mamy; Nina Silva, CEO do Movimento Black Money; Sauanne Bispo, Coordenadora da Fundação Tide Setúbal e Thais Vasconcelos, Sócia no Menezes Vasconcellos e Tosato. 

As startups interessadas em captar podem se cadastrar em nosso site www.wishe.com.br, assim como as pessoas interessadas em investir nesses negócios. Estamos pautados em 3 pilares: a captação de recursos, a comunidade e a capacitação. Com base nestes dois últimos, para quem quiser saber mais, mensalmente organizamos encontros para discutir temas ligados ao investimento em startups. Neste mês, quando comemoramos o dia do empreendedorismo feminino, teremos encontros especiais com as fundadoras do Elas&VC. 

Como surgiu a parceria com a aceleradora B2Mamy? Quais ações vocês atuam juntas?

A aproximação com a B2Mamy e a Dani Junco começou em 2018, para me aprofundar ainda mais no ecossistema de startups fundadas por mulheres e conhecer de perto a jornada delas, com foco especial no momento em que decidem captar investimento. Esse aprendizado nos ajudou a confirmar a nossa tese dos dois lados, tanto do ponto de vista da dor da empreendedora, como também do interesse crescente de pessoas de fora do mercado em conhecer mais sobre investimento em startups e investir com propósito em diversidade. 

Com esse olhar conjunto para a jornada empreendedora da mulher, da fase da ideação até a captação de investimento, também recentemente a Casa B2Mamy se tornou Casa B2Mamy Wishe, onde desenvolvemos juntas projetos de inovação para apoiar as empreendedoras em diferentes frentes, desde a Lab Store, nosso laboratório de inovação em consumo para teste de venda de produtos, até a Casinha, nossa escola do futuro voltada para crianças de 3 a 6 anos, que se desenvolvem enquanto suas mães trabalham na Casa. Recentemente a Casa B2Mamy se tornou Casa B2Mamy Wishe 

O negócio foi impactado com a Pandemia? Quais as perspectivas para 2021?

Infelizmente, como vimos noticiado por tantas vezes, as mulheres foram severamente impactadas pela pandemia, por diferentes razões. Nesse contexto, o que sentimos foi um aumento da busca por investimento por parte das empreendedoras, especialmente entre aquelas que conseguiram ajustar o seu negócio e sua oferta digital e encontraram uma via de crescimento.

A Casa B2Mamy Wishe, por outro lado, ficou quase 6 meses fechada e também precisou se reinventar para continuar se mantendo atraente em um mundo pautado pelo distanciamento social. Mas aqui houve um encontro feliz com a força da comunidade da B2Mamy e com a nossa capacidade de inovação e também conseguimos criar um modelo de co-learning do qual as pessoas querem fazer parte, mesmo que sujeitas a uma série de restrições. 

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