Elas no Comando: Adriana Barbosa, CEO da PretaHub, aceleradora de negócios para negros

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 ELAS NO COMANDO  | Por Beatriz Bevilaqua


O empreendedor muitas vezes não se reconhece nesse lugar de empreendedorismo e de potência. É preciso sim falarmos de autoestima, como um fator de risco para os negócios


Abrimos 2021 com uma entrevista pra lá de especial com uma super empreendedora que faz toda a diferença no ecossistema brasileiro de startups. Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta, maior evento de cultura e empreendedorismo da América Latina, e CEO da PretaHub – aceleradora para negros no Brasil. Foi eleita uma das Mulheres Mais Poderosas do Brasil pela Forbes e homenageada junto ao Lázaro Ramos e a Taís Araújo como os 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo segundo o Mipad, premiação mundial, reconhecida pela ONU.

Também é reconhecida como a primeira mulher negra entre os Inovadores Sociais do Mundo, pelo Fórum Econômico Mundial, e premiada pelo Prêmio Sim à Igualdade Social, por sua trajetória empreendedora. Nessa entrevista falamos sobre diversidade, inovação, empreendedorismo feminino e os desafios da pandemia nos negócios.

São poucas as empresas que tem uma visão de mundo mais comprometida com as dores e necessidades da sociedade

Como surgiu a ideia de criar um espaço compartilhado e gratuito voltado para empreendedores negros? Quais os maiores desafios para inaugurar o espaço em meio à pandemia?

A Casa PretaHub foi pensada, inicialmente, para ser o primeiro coworking para afroempreendedores da cidade, com a pandemia, a ideia foi reformulada para um espaço com diversas estruturas para desenvolver negócios e gerar conteúdo online para micro e pequenos negócios. De forma gratuita, os frequentadores terão acesso à internet, salas individuais, estúdio de audiovisual para gravação de música e podcasts, cozinha industrial para gravação de programas de gastronomia, impressoras 3D, biblioteca, ambiente de loja compartilhada e uma galeria de arte abastecida constantemente com obras de artistas negros. 

Acredito que esse seja um importante passo para o ecossistema. Pensamos a Casa PretaHub com uma ideia de bioma e queremos formar uma grande comunidade de empreendedores que se apoia mutuamente, dentro desse espaço de compartilhamento de infraestrutura e saberes. Após a inauguração,a  Casa PretaHub está atendendo aos protocolos sanitários e de distanciamento social da OMS. Durante a pandemia, o espaço permanecerá com a circulação de pessoas limitada.  

Qual a maior dificuldade que os empreendedores negros têm hoje no Brasil? Para as mulheres negras é ainda mais desafiador, não? Você tem algum estudo nacional sobre o cenário no país?

Inúmeras, mas destaco a questão de se reconhecer empreendedor ou empresário, ultrapassar o limite do MEI, do micro empreender e ter escala nos negócios, o acesso a capital e a ferramentas de gestão, o domínio da tecnologia e também tem a dificuldade em empreender em áreas com alto valor agregado.

O Instituto Feira Preta, desde 2015, vem se dedicando a realizar pesquisas sobre o perfil do empreendedor negro no Brasil, e sobre o padrão de consumo da população negra. Nos dois últimos anos. Realizamos pesquisas com o Instituto Locomotiva e em 2020 fizemos um estudo aprofundado sobre empreendedorismo. O que nos motiva é ter dados, ciência que nos ajude a ter um real impacto em nossas ações com o foco no desenvolvimento econômico da população negra. 

O estudo traz dados muito relevantes para prestarmos atenção. Destaco alguns: O primeiro está relacionado a um número expressivo de empreendedores por vocação, que não empreendem por necessidade, mas por opção e por vislumbrar oportunidades de mercado. E o empreendedor engajado, que que se autodeclara negro e empreendem em produtos e serviços voltados a questão racial. O desafio é o empreendedor por vocação se transformar em um empreendedor engajado, porque assim consegue fazer o black money, trazer desconcentração de renda. Teremos mais empreendedores negros para atender a demanda de consumo da população negra, fazendo a circulação monetária aumentar. O segundo destaque, é em função de acesso a crédito. A grande maioria tem dificuldades de acessar investimentos de bancos. Em muitos relatos, saíram alguns casos de racismo institucionalizado. E o terceiro, destaque para as questões da subjetividade. O empreendedor muitas vezes não se reconhece nesse lugar de empreendedorismo e de potência.É preciso sim falarmos de autoestima, como um fator de risco para os negócios.

Como você firma parcerias com grandes empresas para apoiarem as suas iniciativas? Tem alguma estratégia ou dica especial?

Eu já acho difícil encontrar patrocinadores para um festival quando envolve a questão da sustentabilidade e diversidade racial como é o caso da Feira Preta, o buraco é mais embaixo. As empresas, no geral, têm as suas diretrizes de patrocínio e investimento social privado muito diferentes com as causas mobilizadas pela sociedade civil. Só conseguimos emplacar junto às empresas que estão mais amadurecidas em relação aos seu compromisso e impacto social. Mas posso afirmar que são poucos os cases no Brasil, que tem essa visão de mundo mais comprometida com as dores e necessidades da sociedade. Co Criar com elas um formato em que elas se engajam também com a causa.

Quais as perspectivas da Casa PretaHub para os próximos anos? Pretendem também ter um fundo de investimentos no futuro?

O plano é conseguir levar o conceito para outros Estados e regiões do país, ampliando cada vez mais essa rede e criando um modelo de franquia social adaptável a diferentes necessidades. As primeiras conversas já estão acontecendo com empreendedores da região do Recôncavo Baiano. Cachoeira tem artesanato, ceramistas, um contexto muito diferente de São Paulo. Vamos adaptar o modelo para a comunidade e identidade local.

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