Como o negro pode empreender (e crescer) no Brasil: números X realidade

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Por Edson Mackeenzy
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Os números brigam com a realidade. Se por um lado, os negros representam 55,8% da população brasileira, por outro, são minoria quando pensamos nas posições de liderança que ocupam no país. De acordo com um levantamento encomendado pelo Instituto Feira Preta, 29% dos negros têm um negócio próprio. Mas 82% deles não têm CNPJ, trabalham informalmente porque carecem de apoio para prosperar. Por isso, Edson Mackeenzy, profissional negro, filho de nordestinos pobres, levantou algumas dicas para ajudar os empreendedores a conseguirem a escalabilidade da sua empresa.

Mackeenzy já foi considerado pela revista IstoÉ Dinheiro um dos empreendedores mais influentes do Brasil. Em maio de 2004, abriu a própria empresa, a primeira plataforma de vídeos do mundo. Foram pouco mais de 10 anos até que precisasse encerrar as atividades. E, nesse tempo, sentiu a dificuldade para conseguir capital para poder investir e criar outras oportunidades para a marca. Hoje, Mackeenzy é investidor de Startups, mentor de negócios e em suas próprias palavras, deixa abaixo uma série de dicas de negócios valiosas, fruto de anos de empreendedorismo e de luta contra o preconceito racial.

Procure se capacitar

A gente precisa partir da premissa de que a capacitação do empreendedor negro é diferente da capacitação de outros empreendedores. Provavelmente a formação foi diferente, afinal o problema racial é estrutural no Brasil. Justamente por isso, o empreendedor negro enfrenta a ausência de credibilidade por parte dos clientes. Eles não confiam no negócio e não o consomem, o que faz com que seja difícil manter a empresa em pé. Por isso, é importante que, assim que tenha a oportunidade, o empreendedor negro procure cursos e outras formas de capacitação para ajudar nesse processo de confiança. O fácil acesso à internet ajuda muito nisso hoje em dia.

Segmente o seu negócio

É preciso entender sobre estratégias de negócios. Toda vez que você faz algo direcionado para um público específico, você diminui a margem de erro porque consegue ter uma comunicação, um range, um espectro de experimentação de maneira mais assertiva. O que a gente tem que tomar cuidado aqui é a escolha desse segmento e se ele faz sentido. É preciso fazer uma ampla pesquisa de validação de produto, para entender se aquilo que está oferecendo a aqueles clientes realmente é desejado por eles. Muitas vezes o empreendedor tem uma ideia de negócio que funciona única e exclusivamente na cabeça dele. Ele nunca perguntou para as pessoas que julga serem seu público-alvo se aquele negócio pode e deve acontecer, se faz sentido e se alguém pagaria por ele.

Vou dar um exemplo aqui de segmentação que vale ser pensada. Hoje, por exemplo, existem duas ou três marcas de shampoo exclusivamente para o público afro. Poucas marcas de roupas também olham para esse público específico. E o público LGBTQI+? E as mulheres? As mães? Existem muitos graus e variedades de gênero, de pessoas. E cada um deles tem a sua especificidade e as suas necessidades. Quando você identifica o seu público-alvo ideal e dialoga com ele, consegue atendê-lo da melhor maneira possível.

Saiba a quem pedir crédito

Dados de um estudo realizado pela PretaHub em parceria com o Plano CDE e JP Morgan apontam que 32% dos empreendedores pretos e pardos tiveram um ou mais pedidos de crédito negados pelo seu banco sem que as razões fossem esclarecidas. Ou seja, é difícil falar isso, mas não adianta ir atrás das vias tradicionais. Pesquise uma rede de apoio que realmente queira ajudar o afroempreendedor. Os Estados Unidos possuem universidades voltadas ao público negro, redes de empreendedorismo negro. Aqui no Brasil, além da Feira Preta e da Preta Hub, temos a Black Rocks como aceleradora focada e estruturada em produtos negros.

Fique atento ao momento em que seu negócio se encontra

Fato: quebrar uma empresa é algo especialmente difícil no Brasil. Falo com a propriedade de quem já fez isso. Nos Estados Unidos, quando você abre uma estrutura jurídica, uma empresa, e essa empresa não vai bem, toda a responsabilidade do negócio é atribuída a ela. Quando a empresa fecha, as dívidas acabam junto. Aqui no Brasil não. Aqui o empreendedor, fundador e, em especial, o administrador é responsabilizado na pessoa física. Ou seja, você fica mal visto. E se o negro já enfrenta preconceito no sucesso, imagine na derrota. Quando quebrei a minha empresa em 2015, fiquei devendo quase meio milhão de reais na pessoa física, que só consegui pagar este ano. Por isso, recomendo: aprenda a lidar com o dinheiro e administrar seu próprio negócio. Ao menor sinal de crise, faça adaptações, inove, abra os horizontes, invista em novas frentes.

Pense grande

Outro ponto apontado pelo mapeamento mostra que o afroempreendedorismo é um meio de sobrevivência e está muito relacionado a um sistema de operação voltado para parcerias com outros empreendedores negros. Esse perfil já vem mudando aos poucos. E é preciso que se mantenha isso. Quando o empreendedor passa da subsistência e começa a construir um negócio que supera o ponto de equilíbrio, ou seja, começa a ter lucro, ele já sente a necessidade de expandir para outros países, onde pode ter maior competitividade. E isso é ótimo. Por que não internacionalizar o negócio para um local que queira recebê-lo e pretende abraçá-lo melhor do que seu próprio país? Não pense que avançar fronteiras não é para você. Se você se planejar, se estruturar e pensar grande, pode se surpreender.

Edson Mackeenzy é investidor de Startups e mentor de negócios em busca de escalabilidade, aceleração e internacionalização. Atua como Diretor de Investimentos da TheVentureCity e é membro do conselho da IBS-Américas. Em 2004, fundou a primeira plataforma de compartilhamento de vídeos do mundo, o Videolog.tv, e, em 2013, foi reconhecido como um dos empreendedores mais influentes do Brasil pela revista IstoÉ Dinheiro. Desde então, passou por posições estratégicas na Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão, Bossa Nova Investimentos e iMasters/E-Commerce Brasil. Desenvolve e colabora com vários programas de fomento à inovação, o que lhe rendeu, em 2018, o prêmio de melhor mentor de negócios do país durante o Startup Awards, oferecido pela Associação Brasileira de Startups e AWS.

Com informações de Lívia Pacheco, Casa9.
Foto de capa: LaylaBird via iStockphoto.com

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