Camila Farani: “Gratidão é algo indispensável na vida e nos negócios”

Comentários (0) Beatriz Bevilaqua, Startups

 M U L H E R + S T A R T U P  | Por Beatriz Bevilaqua

Camila Farani é uma das investidoras mais reconhecidas do ecossistema de inovação e startups do país. Com quase 20 anos de investimento em negócios, ela nos conta em entrevista EXCLUSIVA à Gene PME como tudo começou,  seus maiores desafios, conquistas e como alocar capital em mercado de risco

A jornada empreendedora começou bastante cedo. Camila perdeu o pai aos 4 anos de idade, época na qual sua mãe decidiu abrir uma tabacaria no Rio de Janeiro. Aos 16 anos, enquanto trabalhava no negócio da família, propôs para a mãe aumentar em 30% o faturamento do negócio em um determinado período. A aposta era de implementar uma pequena inovação, oferecer café gelado aos clientes (este tipo de produto era muito pouco conhecido nas cafeterias da época). Se o desafio proposto tivesse êxito, ela passaria a ter uma porcentagem da empresa. 

Conseguiu um pouco menos do que foi a aposta (26%), mas sua mãe resolveu compensá-la porque provou que tinha capacidade de execução e conseguiu fazer as ideias acontecerem. Esse aprendizado Camila carrega em tudo que faz. “Se você se propõe a fazer algo, planeje e execute. O fato dela ter me dado porcentagem da empresa foi apenas uma das primeiras (e grandes) lições que ela me ensina até hoje. Gratidão é algo indispensável na vida e nos negócios”, explica, Camila. 

Pouco tempo depois, aos 21 anos, propôs outra inovação na empresa familiar: passou a servir – na área de café – coquetéis da bebida. Com o crescimento das vendas, conseguiu abrir sua primeira sociedade. Alguns anos mais tarde foi sócia e executiva da rede Mundo Verde, quando aprendeu a vivenciar a realidade de uma grande empresa. Quando saiu da companhia entrou na Gávea Angels e se apaixonei pelo ambiente de investimento em startups. 

Qual foi o maior desafio na sua jornada empreendedora? Como vê o cenário atual: de desafios X oportunidades?

Acredito que, para empreender, os maiores impeditivos são a falta de autoconfiança e de autoconhecimento por parte do empreendedor. Quando a pessoa acredita em si mesmo e entende quais são seus objetivos ao empreender e principalmente aonde pretende chegar, tudo fica infinitamente mais fácil. 

Hoje isso soa como clichê, mas a verdade é que somente entendendo seus pontos fortes e fracos, você consegue direcionar sua vida trazendo pessoas que são melhores do que você naquilo que você não é. Importante ter uma meta, lutar para atingi-la e assim criar outras metas. Vejo pessoas chegando para mim e dizendo que precisam de dinheiro. Eu pergunto o motivo e dizem que é para capital de giro. Aí eu pergunto por que precisa de capital de giro e ela não sabe responder. 

Sobre a pandemia, acho importante pontuar que o consumo não parou, apenas mudou de cara. Estudos mostram que, com a quarentena e o isolamento social, um milhão de pessoas perderam o emprego, muitas precisaram tirar férias obrigatórias, pausar os estudos, entre muitas outras condições que deram mais tempo “livre” a elas. Diante desse cenário, a procura por entretenimento como leitura, plataforma de vídeos, music streaming, live streaming, on demand e redes sociais aumentaram significativamente.

Outro ponto: a crise de saúde sanitária resultou em uma série de mudanças nos hábitos e consumo dos brasileiros, porém essa reviravolta não aconteceu somente no mundo tecnológico, mas sim na vida em relação à saúde física. Com o fechamento de academias e um maior interesse por atividades físicas em casa, as pessoas têm se atraído a comprar acessórios de treino e academias passaram a alugar seus equipamentos para seus usuários. Buscas por aluguel de esteiras tiveram um aumento de 572%, por halteres e elásticos, 100%, e por colchonetes, 82%. E assim por diante, com alimentação, utensílios para a casa, etc.

Como foi a criação do MIA (Mulheres Investimento Anjo)? Como funciona o grupo e qual é o seu objetivo?

O MIA é um movimento de fomento ao Investimento Anjo Feminino para apoio a empreendedoras de negócios de alto impacto. Somos a primeira iniciativa de Mulheres Investidoras Anjo no Brasil. Nosso foco é investir em startups lideradas por mulheres. O MIA – Mulheres investidoras Anjo foi fundado em dezembro de 2013. Somos o resultado de um incômodo com a falta de mulheres no ecossistema de investimento e empreendedorismo de inovação. Detalhando melhor, Maria Rita Spina Bueno atuava na Anjos do Brasil – organização de fomento ao investimento anjo – desde 2011. Sempre acreditou que investidores anjo podem ajudar no desenvolvimento do Brasil, apoiando startups que criam soluções inovadoras para problemas reais. Tudo parecia bem, mas havia este desconforto latente: a participação feminina era muito pequena. E o problema não era só no Brasil, mas em todo o mundo. No entanto, entendíamos que era algo que tinha solução. E a solução era criar um movimento de fomento ao investimento anjo feminino para apoiar a entrada de mais mulheres como investidoras e apoiar empreendedores de startups. Maria Rita convidou Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora e a mim, na época sócia do Lab22 para cofundarem o movimento. As três compartilham a mesma visão sobre a importância da diversidade na construção de negócios inovadores e se complementam no conhecimento e contatos sobre a realidade de investidoras e empreendedoras brasileiras. Hoje o MIA está integrado à rede da Anjos do Brasil. Maria Rita cuida do dia a dia do movimento, Ana e Camila são parte do conselho do MIA.

Qual tipo de análise você faz para diminuir o potencial de risco em suas escolhas?

Acredito que todo investidor-anjo também deva ser empreendedor, de modo a entender o que o seu investido está enfrentando e também para ter ideias para inovar no chão de loja. Uma boa dica para investidores-anjo diminuírem o potencial de risco é investirem em grupo.

Preciso te contar um segredo: já tive burnout e posso dizer que não é nada agradável. Eu trabalho exaustivamente e desde sempre foi assim. Com 23 anos eu já comandava minha própria empresa e aos 26 acumulava quatro negócios próprios.

Você tem uma agenda bastante lotada. Como você gerencia todos os seus compromissos para não chegar à um burnout?

Preciso te contar um segredo: já tive burnout e posso dizer que não é nada agradável. Eu trabalho exaustivamente e desde sempre foi assim. Com 23 anos eu já comandava minha própria empresa e aos 26 acumulava quatro negócios próprios. Foi quando fui chamada para atuar como executiva em uma grande corporação: a Mundo Verde. Quando decidi sair do grupo Mundo Verde, já com uma bagagem de aprendizado, voltei para os meus negócios e criei o Grupo Boxx para consolidar as marcas de alimentação, inclusive a Farani Caffè. Criei novos segmentos em serviços para empresas e também ao público final. Foi nesse período que um amigo me convidou a conhecer o que eram investimento-anjo e startups. Hoje sou investidora de 40 startups, sendo alguns investimentos diretos e outros indiretos (por meio de sociedades com aceleradoras e grupos de investimento-anjo). Então, estou acostumada a pressão, mas medito diariamente, procuro estar perto da minha família e amigos o tempo todo, contato com animais e natureza. Esses são meus maiores remédios para gerenciar tudo. 

Quais são as maiores dificuldades para as mulheres que querem empreender e qual dica você daria para quem busca investimento em sua empresa.

Existe menos “cultura de entender metas, indicadores e objetivos” entre as mulheres, até por uma questão histórica. A mulher se inseriu no mercado de trabalho muito depois do homem. É uma questão de tempo, experiência prática e dedicação para isso mudar e isso já vem mudando. A maior dificuldade que ela tem é conseguir romper a barreira da Síndrome da Impostora, quando acredita que não é boa o suficiente e que os homens podem chegar mais alto que ela. 

Posso afirmar com bastante convicção que quando ela consegue transpor essas barreiras emocionais ela possui muito mais força para empreender. Se quer buscar investimento basta analisar minha tese de investimento disponível no meu site (camilafarani.com.br) ou no da G2 Capital (g2capital.co) ou até mesmo ver quais são os principais indicadores que analiso no Shark Tank Brasil (sonychannel.com/shark-tank-brasil). 

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