Aceita cartão?

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Parece até mentira, mas muitos estabelecimentos no comércio ainda não aceitam cartões de débito e crédito. E como o cheque caiu quase em desuso, muitos alegam que, além de não valer a pena, ainda têm dores de cabeça com as administradoras. Então, qual a saída para esses negócios? Existem outras formas de pagamento?

Você consegue se imaginar pagando um produto sem o seu cartão de crédito/débito ou sequer uma folha de cheque? Nos dias atuais é impensável fazer uma compra e não pagá-la com uma das formas mencionadas.

Algumas pesquisas de tendência de mercado varejista indicam até que, no futuro, todos os pagamentos serão feitos por aplicativos/smartphone e que o dinheiro de nota, cartão de crédito e cheques serão raridade no mercado.

Na China, essa prática já vem sendo utilizada em alguns estabelecimentos, mas para o Brasil ainda se trata de uma condição muito embrionária. E enquanto essa moda não chega por aqui, são os cartões de crédito/débito, dinheiro “vivo” ou folhas de cheque que pagam as nossas contas.

Mas acredite, existem alguns estabelecimentos que ainda não adotaram o cartão de crédito/débito e muito menos aceitam cheques. Muitas vezes perdem clientes por isso e ficam na dúvida se haveria outra forma de cobrar por seus produtos.

Não dá para negar que a forma mais segura, prática e rápida de pagarmos os produtos e serviços que consumimos no mercado é por meio do uso do cartão – o conhecido dinheiro de plástico. “A aceitação do cartão é uma opção, e, além de mais segura para o estabelecimento, potencializa as vendas, pois a maioria da população possui cartão, melhorando a probabilidade de aumentar o faturamento”, explica o professor do curso de ciências contábeis da Faculdade Santa Marcelina (FASM), Joaquim Xavier.

Dessa maneira, não precisamos carregar dinheiro, planejamos os nossos pagamentos, não corremos o risco de assalto e podemos consumir tendo saldo ou não – no caso do cartão de crédito. “Além disso, o cartão garante ao comerciante o recebimento do valor da venda, independentemente se o portador do cartão pagar a fatura pontualmente ou não. Portanto, apesar das altas taxas e prazo para recebimento, a entrada do dinheiro é líquida e certa”, endossa o professor da incubadora Mackenzie, Alexandre Nabil.

É bom para o consumidor, e para o comerciante também é um ótimo negócio. “Ao vendedor cabe buscar o ganho maior nessa relação em que a restrição de pagamento é muito grande. Para convencer o cliente a pagar em dinheiro, é preciso trabalhar o seu lado emocional. Nem sempre a conquista dará certo, mas é importante fazê-lo compreender o prazer da experiência vivida, o que ele, cliente, pode dizer aos amigos sobre a experiência em adquirir o produto ou serviço, a sua contribuição para a economia e cultura local e, obviamente, a colaboração dele para o vendedor e sua família”, indica também o contador formado pela UFRJ e coordenador de Finanças da Petrobras em Salvador/BA, Luís de Carvalho Soares.

Toma aqui o meu cartão

Pagar com o dinheiro de plástico tornou-se a melhor opção por diversos motivos; um deles é a questão da segurança, pois os índices de furtos e roubos aumentaram. Por outro lado, uma razão para a diminuição do uso de dinheiro é a falta de praticidade.

Com relação aos cheques, os altos indicadores de devolução fazem dessa uma modalidade de pagamento pouco atrativa. “Cartão de crédito é o mais seguro, pois a responsabilidade do recebimento do cliente é da Administradora de Cartões, que correrá esse risco. Já com o cheque não existe garantia do recebimento, o empresário deve se cercar de consultas às empresas que oferecem esse serviço para reduzir o risco de inadimplência”, indica o professor do curso de ciências contábeis da FASM.

No entanto, muitas vezes a grande questão para os donos de empreendimentos pequenos e que ainda não trabalham com cartões de crédito/débito é analisar como os seus clientes podem consumir os seus serviços e produtos sem o uso dessas opções de pagamentos.

Soares aponta as várias formas de pagamentos existentes no comércio: “O pagamento à vista, pagamento antecipado, pagamento por boleto bancário, pagamento por transferências entre contas-correntes, pagamento por Bitcoins, pagamento por utilização de créditos/pontos/códigos promocionais etc.”, diz frisando, no entanto, que quando não se aceita cartões, tem que ser em dinheiro.

Por que tão rudimentar?

Xavier relata que as empresas de pequeno porte representam 99% das empresas com CNPJ em nosso País; no estado de São Paulo, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs)respondem por 67% dos empregos diretos e 2% da pauta das exportações. “Neste ponto também vale destacar que o nível médio do empresário das empresas de pequeno porte chega ao antigo primeiro grau incompleto, o que mostra que essas inovações, como o cartão de crédito, não fazem parte da rotina dessas empresas”, lembra o especialista.

Por conta desse desconhecimento, muitos empresários ainda usam métodos rudimentares, como “cadernetas” para pagamentos futuros, demonstrando credibilidade em sua carteira de clientes, outros vendem “fiado”, na base da confiança, o que também pode ser considerado arcaico no mercado.

O professor da FASM explica que uma das maneiras de resolver essas questões é excluir da rotina do pequeno empreendedor formas ultrapassadas de recebimento e, aos poucos, familiarizar-se com essas novas modalidades de pagamento. “Anotar em caderneta e vender fiado mostra-se contraproducente, pois não contribui com o desenvolvimento do negócio, ao passo que a venda por cartão de crédito terá a garantia do recebimento”, diz. 

Boletos e transferências

Algumas alternativas também são interessantes e até já utilizadas para os comerciantes que não aceitam pagamentos com cartões. O especialista em sistemas de pagamento para MEIs e pequenas empresas, cofundador e CEO da Asaas, Piero Contezini, dá algumas sugestões, entre elas, a de o comerciante receber usando outras tecnologias, como boletos, depósitos, transferências ou até mesmo fintechs, como Asaas, PicPay e PayPal. “Os comerciantes também devem se preocupar em começar a aceitar criptomoedas, como o Bitcoin e o Etherium”, lembra.

Dentre todas essas soluções, o boleto é a melhor opção, pois a partir de um computador ou aplicativo de celular, o empreendedor pode emitir boletos, notas e até aceitar pagamentos por cartão de crédito. Para não perder os clientes, o comerciante pode falar que existem métodos alternativos e que são aceitos pelo estabelecimento.

Não tem jeito, só dinheiro

Mas para os estabelecimentos que só aceitam dinheiro não perderem os seus clientes é necessário montar uma estratégia.

Atualmente, andar com dinheiro é algo raro, pois as pessoas se sentem inseguras com assaltos e roubos. Portanto, para que essa prática não tenha resultados negativos, é preciso uma operação inteligente por parte dos comerciantes, promovendo preços competitivos e estimulantes ao consumidor. “Com esta atitude de não aceitar cartão, o lojista corre um grande risco de o cliente mudar de ideia no caminho e muitas vezes não voltar, por isso, obter preços extremamente competitivos é o que pode garantir o retorno e a fidelidade”, relata a sócia-diretora da HAI Consultoria & Varejo, Gabrielle Fernandes.

Além do preço, o coordenador Luís de Carvalho Soares explica que o cliente volta por diversas razões: “A experiência a ser vivida por causa da exclusividade de algo que não se acha em todo lugar, a qualidade no atendimento, o ponto de localização do negócio, a limpeza do estabelecimento, a variedade de produtos que criam alternativas aos olhos e ao gosto (que pode ser também alternativo) do cliente”, diz complementando que conhecer os endereços de postos de atendimento bancário e caixas eletrônicos para saque e guiar o cliente até o local é também uma boa estratégia.

É importante fazer uma avaliação criteriosa de conversão de vendas, o lojista precisa sempre parar e avaliar quantas vendas não foram finalizadas pela falta de aceitação de cartões de crédito e cheques.

Gabrielle Fernandes explica que só assim o lojista terá conhecimento quantitativo em relação à perda x conversão e certamente se convencerá de que a utilização dessas ferramentas é fundamental para o mercado atual e o cliente final. “Mas saliento a importância de que todas as práticas na utilização de cartão sejam muito bem negociadas para que o lojista controle suas margens com sucesso. Já com o cheque existe um risco maior, como a possibilidade de um futuro questionamento em caso de cheques sem fundo. Lembrando que o risco de cheques sem fundo existe tanto para o lojista, que não recebe, quanto para o comprador, de ‘sujar o nome’”, lembra a sócia-diretora da HAI Consultoria & Varejo.

Nem dinheiro nem vale-alimentação

Existem alguns comércios e restaurantes famosos, como o Sujinho em São Paulo, que mantêm sua política de não aceitar cartões nem vale-alimentação. E continuam com a casa cheia, pela tradição, boa relação preço/custo percebida pelos clientes e assim seguem com um público fiel.

O professor da incubadora Mackenzie, Alexandre Nabil, conta que esses estabelecimentos alegam que não aceitam pagar taxas que consideram exorbitantes, por volta de 3,5% no crédito e 7% no vale-alimentação, além da espera de 30 dias para receber. Mas ele explica, no entanto, que esses restaurantes que não aceitam cartões de crédito estão perdendo vendas e lucro. “Quando o ticket médio é alto, essa perda é ainda mais significativa”, finaliza.

Saiba mais

Só teria sentido não aceitar cartão no seu estabelecimento sob as seguintes condições:

  1. O seu produto/serviço é exclusivo ou essencial, altamente demandado e o cliente não tem outras opções (exemplo: alguns serviços públicos, mensalidade de clubes e escolas).
  2. Se a margem de contribuição for menor que o custo financeiro de aceitar o cartão (casos raros, dificilmente se trabalha com margens tão baixas).
  3. Se estiver com capacidade instalada esgotada para a demanda atual (caso do restaurante Sujinho). 

Fonte: Alexandre Nabil, professor da incubadora Mackenzie.

Você sabia?

Em contrapartida, alguns estabelecimentos também acabam não querendo mais aceitar dinheiro em espécie dos seus consumidores diante dos altos índices de assalto no mercado. Mas essa prática, segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), é proibida pela Lei das Contravenções Penais e pelo Código Civil Brasileiro. O cliente pode recorrer aos órgãos de defesa do consumidor ou à polícia.


“A aceitação do cartão é uma opção, e, além de mais segura para o estabelecimento, potencializa as vendas, pois a maioria da população possui cartão, melhorando a probabilidade de aumentar o faturamento”

Joaquim Xavier, professor do curso de ciências contábeis da Faculdade Santa Marcelina (FASM)


“Com esta atitude de não aceitar cartão, o lojista corre um grande risco de o cliente mudar de ideia no caminho e muitas vezes não voltar, por isso, obter preços extremamente competitivos é o que pode garantir o retorno e a fidelidade”

Gabrielle Fernandes, sócia-diretora da HAI Consultoria & Varejo


Alexandre Nabil, professor da incubadora Mackenzie

Crédito: Arquivo pessoal

“O cartão garante ao comerciante o recebimento do valor da venda, independentemente se o portador do cartão pagar a fatura pontualmente ou não. Portanto, apesar das altas taxas e prazo para recebimento, a entrada do dinheiro é líquida e certa”

Alexandre Nabil, professor da incubadora Mackenzie


Luís de Carvalho Soares, contador formado pela UFRJ e coordenador de Finanças da Petrobras em Salvador/BA

Crédito: Arquivo pessoal

“Para convencer o cliente a pagar em dinheiro, é preciso trabalhar o seu lado emocional. Nem sempre a conquista dará certo, mas é importante fazê-lo compreender o prazer da experiência vivida, (…) a sua contribuição para a economia e cultura local e, obviamente, a colaboração dele para o vendedor e sua família”

Luís de Carvalho Soares, contador formado pela UFRJ e coordenador de Finanças da Petrobras em Salvador/BA


Piero Contezini, cofundador e CEO da Asaas

Crédito: Arquivo pessoal

“Os comerciantes também devem se preocupar em começar a aceitar criptomoedas, como o Bitcoin e o Etherium”

Piero Contezini, cofundador e CEO da Asaas

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